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ARTIGO

Por que lutar por jaulas vazias?


Maria de Nazareth Agra Hassen

Por maiores que sejam as diferenças entre as espécies, nem a biologia nega uma verdade a alguns ainda chocante: somos todos animais.


Macacos, gatos, carneiros, porcos, lagartixas, ratos: muitas diferenças há entre estas espécies e a humana. Dependendo do critério comparativo que se adote, a superioridade pende para umas em detrimento de outras. Ninguém duvida de que o faro de um cão é superior ao de um sapo, ou que a visão do cavalo é inferior à do lince. Ninguém duvida de que a capacidade de produzir tecnologia de ponta é infinitamente superior nos humanos. Por maiores que sejam as diferenças entre as espécies, nem a bioogia nega uma verdade a alguns ainda chocante: somos todos animais.

Não Queremos Jaulas Maiores, Queremos Jaulas Vazias.

Nos últimos milhares de anos, a história do planeta pode ser contada a partir da escravização das espécies não humanas pelos humanos. Poderíamos dizer também que a história tem se construído pela dominação do forte sobre o indefeso, e isso mesmo internamente à espécie humana, tanto é que o fenômeno da escravidão aconteceu e acontece em diferentes países, refletindo a mesma lógica. Entretanto, a evolução dos aspectos morais fez o homem reconhecer que essa possibilidade natural – a supemacia do forte sobre o fraco – não se sustentava do ponto de vista ético. Pelo contrário, a ética tratou de apontar ao homem a necessidade de proteger os seres mais vulneráveis: idosos, crianças, doentes, dentro do princípio da tutela do fraco. O mesmo ainda não se estendeu à consideração das espécies mais fracas. Se a dominação das espécies mais fracas está justificada pelo princípio do estado de natureza em que o forte domina o fraco, não deveria estar na égide da racionalidade e mralidade humana. Alegar o estado de natureza nos levaria a re-adotar uma série de hábitos e de visões que fomos abandonando pelo uso da razão e da ética. O homem, a despeito disso, segue explorando os animais.
Os defensores dos direitos animais (DDAs) costumam ser abordados e forçados a justificar sua defesa de espécies “inferiores”, quando o opressor é que deveria se justificar. Cabe perguntarmos por que razão ciência, religião e cidadãos pacatos, pobres e ricos, todos se unem em torno de um ponto comum: a exploração animal? Por que ainda se matam animais para comer, havendo alternativas alimentares, saudáveis, ecológicas e econômicas? Por que ainda se caçam animais, havendo tantas formas de lzer e até reproduções da prática de caçar em meios tecnológicos? Por se mantêm animais em gaiolas, quando se pode adornar uma casa com quadros e esculturas e ouvir os cantos em aparelhos de som? Por que cientistas não buscam alternativas ao uso de animais em pesquisas? Quando ciência e religião ficam tão próximas que não sabemos quem é mais fundamentalista, temos aí um grave problema. Nem todo progresso é ético, nem todo progresso eleva. Contra a ética, nenhum progresso se justifica.

O ano de 2008, na contramão da escravização animal, consolida a luta pelos seus direitos, defendendo algo maior do que o bem estar animal, a sua definitiva libertação. Quando Tom Regan escreve o livro Jaulas Vazias, está defendendo a idéia da libertação animal e repudiando o chamado bem-estarismo, pelo qual alguns protetores de animais preconizam melhores tratamentos, aceitando, porém, a idéia da escravidão. Algo como um senhor de escravos generoso. O abolicionismo repudia qualquer forma de esravidão, e alguns teóricos do abolicionismo chegam a atestar que o bem-estarismo consolida e protela a escravidão animal eternamente. Assim, Porto Alegre sediará no próximo dia 13 mais uma edição do Dia Internacional dos Direitos Animais, sob o tema Não Queremos Jaulas Maiores, Queremos Jaulas Vazias.




Sobre o autor

Maria_de_nazareth_agra_hassen
Maria de Nazareth Agra Hassen
Graduada em Filosofia, mestre em Antropologia Social e doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atualmente é pesquisadora no Grupo Arte e Fotografia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisadora e professora titular do Centro Universitário Ritter dos Reis, onde leciona antropologia e filosofia nos cursos de Direito e Pedagogia. Academicamente, atua nos seguintes temas: metodologia de pesquisa, etnografia, filosofia para crianças, antropologia jurídica e diretos animais. Recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, categoria Ensaio de Humanidades (2000) pelo livro de sua dissertação, O Trabalho e os Dias: ensaio antropológico sobre trabalho, crime e prisão. Coordena a Coleção Filosofinhos, tendo escrito os volumes Sócrates, Platão e Descartes (Prêmio Os Correios e o Sul, 2003).

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