GRUPO PELA ABOLIÇÃO DO ESPECISMO
Um pouco mais adiante, no outro parque, o da Harmonia, impetravam-se mais e mais abusos contra a dignidade dos animais, humanos e não humanos.
Os humanos foram submetidos a maus tratos em todos os seus sentidos: música alta (uma tal Macarena fazia muito sucesso), competindo com o locutor do espetáculo (que falava numa linguagem cifrada ou estrangeira – desafia-se que alguém consiga compreender mais do que uma sequência de duas palavras), mau cheiro de fumaça de churrasqueiras a cada dez metros, e a visão tampouco é das melhores. Muitas facas na cintura, porcos assados inteiros, ovelhas abertas ao meio, muitas pessoas fora de forma (talvez por andar por muito tempo a cavalo), trajes de gosto muito duvidoso, vestidos longos com babados deixando trilhas no barro que se formava.
Mas o que atrai tantas pessoas a um local em que elas se encontram amontoadas, voltam para casa defumadas, não encontram locais confortáveis para sentar ou aprazíveis para o olhar? O rodeio. Ah, o rodeio! Arquibancadas são montadas e permitem ao seu frequentador, sem custo de ingresso, sentar comodamente no duro e sem encosto, assistir a algo que consiste na corrida desesperada de pequenos bois de olhos muito arregalados, que depois de levarem nada gentis cutucadas de humanos contratados para a nobre função de os tocar em um brete, disparam rumo ao nada, numa ânsia incontrolada de voltar ao seu local de origem. Não encontram o conhecido lar, entram num picadeiro e são perseguidos por um homem montado a cavalo que se julga valente e que tenta laçá-lo. A platéia não tem ocasião de grandes entusiasmos, só se ouvem as conversas, um que outro olha para uma atuação que se repete e se repete e se repete. A maior parte dos valentes não consegue pegar os bois, mas eles ficam ali insistindo e insistindo e insistindo, mesmo que pouca gente preste atenção. É mais, talvez, para dizer “fui ao rodeio no domingo”. Esse fastio todo é uma alternativa ao Faustão. Pena que não seja assim inocente. Pena que seja tão aviltante para os animais, para todos os animais. E pena que ainda não conseguimos descobrir quem paga por tal evento tão cultural. No parque que ironicamente se chama Harmonia.