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    <title>GAE</title>
    <link>http://www.gaepoa.org/</link>
    <description>Grupo pela Aboli&#231;&#227;o do Especismo - Porto Alegre</description>
    <language>en-uk</language>
    <item>
      <title>Mais um restaurante em Porto Alegre!</title>
      <description>No casar&#227;o, onde &#224; noite funciona um pub, comida da melhor qualidade &#233; servida ao meio dia, de segunda a s&#225;bado. Fica na rua da Rep&#250;blica, 163. O ambiente &#233; agrad&#225;vel, mesas com toalhas e boas cadeiras, a m&#250;sica &#233; boa, o atendimento muito atencioso, o pre&#231;o justo. H&#225; uma entrada de caldos, prato feito e sobremesa ao custo de 11,50. O suco &#233; cobrado &#224; parte. Tudo isso e mais o fundamental: a comida &#233; MUITO boa.</description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 07 Jan 2010 22:06:59 -0200</pubDate>
      <link>/site/news/9-mais-um-restaurante-em-porto-alegre</link>
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    </item>
    <item>
      <title>Restaurante Especiarias, louvado seja!</title>
      <description>O novo restaurante inseriu-se discretamente no cen&#225;rio local. Sem alardear que &#233; vegetariano, apresenta uma proposta diferente. Isso porque ele &#233; igual. Igual aos restaurantes normais sofisticados. Tudo com que sempre sonhamos. Card&#225;pio variado, muitas op&#231;&#245;es de pratos quentes e sobremesas, muito bom gosto na decora&#231;&#227;o, espa&#231;oso, &#225;rea aberta com mesas, atendimento impec&#225;vel.

Fica atento para pedir sempre a vers&#227;o vegana, pois muitos pratos incluem queijos.

Fica na Miguel Tostes, 290. Confere o &quot;site ainda em constru&#231;&#227;o&quot;:http://restauranteespeciarias.com/</description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 07 Jan 2010 22:10:42 -0200</pubDate>
      <link>/site/news/10-restaurante-especiarias-louvado-seja</link>
      <guid>/site/news/10-restaurante-especiarias-louvado-seja</guid>
    </item>
    <item>
      <title>Vivissec&#231;&#227;o: um neg&#243;cio indispens&#225;vel aos interesses da ci&#234;ncia?</title>
      <description>Cientistas e pesquisadores que investigam as doen&#231;as que afligem humanos s&#227;o treinados em centros de pesquisa na pr&#225;tica criminosa da vivissec&#231;&#227;o, proibida pela Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, quando h&#225; m&#233;todos substitutivos. Em muitos casos, a vivissec&#231;&#227;o &#233; o &#250;nico m&#233;todo no qual a intelig&#234;ncia cient&#237;fica recebe treinamento. Nos &#250;ltimos quarenta anos, a pesquisa biom&#233;dica centrou esfor&#231;os em experimentos com &#8220;modelos&#8221; obtidos &#224;s custas do sofrimento e morte de animais n&#227;o-humanos, usados para espelhar as doen&#231;as produzidas num ambiente f&#237;sico e mental humano. Entre essas est&#227;o o c&#226;ncer, os acidentes vasculares, a hipertens&#227;o, a hipercolesterolemia, o diabetes, a esclerose m&#250;ltipla, as degenera&#231;&#245;es neurol&#243;gicas conhecidas por mal de Parkinson e mal de Alzheimer, a &#8220;depress&#227;o&#8221; e  outras formas de sofrimento ps&#237;quico. Ratos, camundongos, c&#227;es, s&#237;mios, cavalos, porcos e aves s&#227;o comercializados no mercado vivisseccionista.

S&#243; para dar um exemplo: Calcula-se que sejam 2, 6 milh&#245;es de humanos sofrendo de esclerose m&#250;ltipla ao redor do planeta. Os medicamentos obtidos a partir da vivissec&#231;&#227;o de roedores fracassaram. Cientistas reconheceram que a causa da doen&#231;a &#233; &#8220;ambiental&#8221;, contribuindo para ela diferentes genes, n&#227;o apenas um. Os medicamentos dispon&#237;veis hoje, de origem microbiana, n&#227;o resultaram da vivissec&#231;&#227;o, e sim da codifica&#231;&#227;o da estrutura f&#237;sico-qu&#237;mica deles (Greek &amp; Greek, Specious Science).

p(highlight). Calcula-se que sejam 2, 6 milh&#245;es de humanos sofrendo de esclerose m&#250;ltipla ao redor do planeta. Os medicamentos obtidos a partir da vivissec&#231;&#227;o de roedores fracassaram. 

N&#227;o sendo aquelas doen&#231;as de origem gen&#233;tica nem heredit&#225;ria, qual seria o prop&#243;sito cient&#237;fico em se insistir na arquitetura do modelo animal para buscar a cura delas?

Talvez se possa saber a resposta, olhando para os interesses financeiros (reais &#8220;benef&#237;cios humanos&#8221;?), em jogo na base, em volta e por detr&#225;s da atividade vivisseccionista acad&#234;mica e dos neg&#243;cios que ela encobre. Consultando-se a tabela de pre&#231;os das empresas que fornecem camundongos geneticamente modificados para pesquisas vivisseccionistas, por exemplo, come&#231;amos a ter uma id&#233;ia do que se esconde por detr&#225;s do argumento do &#8220;benef&#237;cio humano&#8221;, que os vivisseccionistas defensores da legaliza&#231;&#227;o desta pr&#225;tica anti-&#233;tica usam como escudo para protegerem-se das cr&#237;ticas abolicionistas.

A pesquisa com animais vivos &#8220;beneficia interesses humanos&#8221;: o pre&#231;o de um camundongo geneticamente modificado, para citar apenas uma esp&#233;cie usada na vivissec&#231;&#227;o, pode variar de U$ 100,00 a U$ 15.000,00 d&#243;lares a unidade. Os utens&#237;lios para o devido manejo de um animal desses n&#227;o s&#227;o oferecidos por pre&#231;os camaradas. Um aparelho para matar, de forma &#8220;humanit&#225;ria&#8221;, animais usados na pesquisa, desativando-lhes as enzimas cerebrais, custa algo em torno de U$ 70.000,00 a unidade. Aparelhos para conter ratos, c&#227;es, gatos e macacos, podem custar entre U$ 4.500,00 a U$ 8.500,00 a unidade. Os &#8220;produtores&#8221; de animais tamb&#233;m s&#227;o parte desta cadeia que forma a &#8220;depend&#234;ncia da ci&#234;ncia em rela&#231;&#227;o &#224; vivissecc&#231;&#227;o&#8221;, sem a qual ela n&#227;o pode sobreviver hoje, e &#224; qual a vida e a sa&#250;de humana est&#227;o algemadas.

Em 1999, relatam Greek &amp; Greek, a venda de camundongos nos Estados Unidos alcan&#231;ou 200 milh&#245;es de d&#243;lares. A de outros animais chegou a 140 milh&#245;es de d&#243;lares. Mas, os &#8220;benef&#237;cios humanos&#8221; aos quais os vivisseccionistas se referem em sua defesa p&#250;blica da regulamenta&#231;&#227;o da vivissec&#231;&#227;o no Brasil, n&#227;o se restringem apenas ao que os empres&#225;rios produtores de animais e fabricantes de aparelhos para cont&#234;-los nos biot&#233;rios e laborat&#243;rios faturam. Tamb&#233;m os editores das revistas, jornais e livros s&#227;o parte desta comunidade humana &#8220;beneficiada&#8221; pela vivissec&#231;&#227;o. E, finalmente, o benef&#237;cio humano mais espetacular est&#225; no faturamento da ind&#250;stria qu&#237;mica e farmac&#234;utica, uma cadeia de neg&#243;cios ao qual est&#227;o atreladas todas as farm&#225;cias ao redor do planeta e todas as pessoas que compram medicamentos alop&#225;ticos na esperan&#231;a de cura ou al&#237;vio de seus males, e alimentos processados, cujos componentes levaram os animais a sofrerem o Draize Test e o LD 50.

p(highlightr). Ningu&#233;m publica, no Brasil, um relato minucioso do montante destinado pelas ag&#234;ncias financiadoras &#224; pesquisa vivisseccionista. Por isso, n&#227;o temos conhecimento dos custos do fracasso vivisseccionista

Mas, quando os vivisseccionistas publicam artigos defendendo a legaliza&#231;&#227;o de sua pr&#225;tica anti-&#233;tica, a de matar animais para inventar modelos que possam espelhar doen&#231;as humanas, mesmo sabendo que cada organismo tem sua pr&#243;pria realidade ambiental e n&#227;o existe um meio que possa curar uma mesma doen&#231;a em todos os indiv&#237;duos, pois cada um a desenvolve de modo peculiar, os &#8220;benef&#237;cios cont&#225;beis&#8221; e os &#8220;benef&#237;cios acad&#234;micos&#8221; acumulados em todos os elos dessa cadeia vivisseccionista s&#227;o escondidos do leitor. Ningu&#233;m publica, no Brasil, um relato minucioso do montante destinado pelas ag&#234;ncias financiadoras &#224; pesquisa vivisseccionista. Por isso, n&#227;o temos conhecimento dos custos do fracasso vivisseccionista (AIDS, c&#226;ncer, Parkinson, Alzheimer, esclerose m&#250;ltipla, diabetes, colesterolemia, doen&#231;as ambientais, muito mais do que gen&#233;ticas).

A pesquisa com animais levou a ind&#250;stria farmac&#234;utica ao apogeu nos &#250;ltimos vinte anos. N&#227;o casualmente, nestes &#250;ltimos vinte anos, multiplicaram-se as mortes por insufici&#234;ncia circulat&#243;ria, hipertens&#227;o, diabetes, c&#226;ncer, s&#237;ndromes neurol&#243;gicas degenerativas, cirrose hep&#225;tica e infec&#231;&#245;es. O componente ambiental dos males humanos n&#227;o pode ser espelhado em organismo de ratos e camundongos. Ao mesmo tempo, vivisseccionistas insistem em defender a lei que legalizar&#225; sua pr&#225;tica, dando a entender ao p&#250;blico leigo que a vivissec&#231;&#227;o &#233; a &#8220;sa&#237;da&#8221; para a cura dos males humanos. Seus artigos &#8220;cient&#237;ficos&#8221; n&#227;o produzem efeito, nem sobre seus pares vivisseccionistas. Como poderiam produzir efeitos sobre a sa&#250;de humana? 80% dos artigos publicados em revista especializada s&#227;o citados no m&#225;ximo uma vez em outros ve&#237;culos, e 50% dos artigos vivisseccionistas jamais s&#227;o citados, seja na mesma, seja em outras revistas (Greek &amp;Greek). Os milh&#245;es de animais mortos para que tais artigos sejam publicados e para que seus autores os contabilizem em sua produtividade acad&#234;mica, tiveram suas vidas destru&#237;das para nenhum outro &#8220;benef&#237;cio humano&#8221;, a n&#227;o ser dar a seus autores o t&#237;tulo de mestre e doutor, ou a concess&#227;o de bolsas de produtividade.
S&#227;o esses os reais &#8220;benef&#237;cios humanos&#8221; da pr&#225;tica vivisseccionista, dos quais ningu&#233;m pode abrir m&#227;o? </description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 18 Fev 2010 22:00:00 -0200</pubDate>
      <link>/site/articles/7-vivissec%C3%A7%C3%A3o-um-neg%C3%B3cio-indispens%C3%A1vel-aos-interesses-da-ci%C3%AAncia</link>
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    </item>
    <item>
      <title>Voc&#234; j&#225; comeu a Amaz&#244;nia hoje?</title>
      <description>Voc&#234; e eu somos bois-de-pres&#233;pio ou cidad&#227;os do planeta? Voc&#234; acredita que a sua forma de viver, alimentar-se, comportar-se, construir a sua casa, presentear seus amigos, visitar os lugares ou votar possua rela&#231;&#227;o direta com a Amaz&#244;nia? Caso afirmativo, voc&#234; aceitaria avaliar se est&#225; comendo ou n&#227;o a Amaz&#244;nia? A cada dia as pesquisas cient&#237;ficas e os relat&#243;rios ambientalistas s&#227;o mais taxativos: n&#227;o podemos nos dar ao luxo de esperar que as pessoas se conven&#231;am sobre a gravidade da
situa&#231;&#227;o da Amaz&#244;nia. Ser&#225; tarde demais quando fazendeiros, garimpeiros, madeireiros,
funcion&#225;rios p&#250;blicos, representantes do poder p&#250;blico e a popula&#231;&#227;o em geral ,
despertarem para o fato. Teremos perdido a maior parte da Amaz&#244;nia.

*Os fatos*

Em cinco s&#233;culos 95% das popula&#231;&#245;es ind&#237;genas desapareceram. Na&#231;&#245;es inteiras
foram extintas pelas doen&#231;as, pela escravid&#227;o e pelas armas trazidas pelos europeus. As
Na&#231;&#245;es que sobreviveram, cerca de 180, com mais de 200 mil indiv&#237;duos (1% da
popula&#231;&#227;o da regi&#227;o), contam com poucos aliados entre os funcion&#225;rios p&#250;blicos e
organiza&#231;&#245;es da sociedade civil para se defenderem de garimpeiros, ca&#231;adores, ladr&#245;es
de madeira e grileiros.

Em termos sociais a Amaz&#244;nia &#233; uma das regi&#245;es de maiores desigualdades
econ&#244;micas e sociais do planeta. Esta &#233;, de longe, a mais violenta do pa&#237;s, respondendo
pela maioria dos casos de morte em conflitos pela terra, n&#250;mero de trabalhadores
escravizados em fazendas de pecu&#225;ria e pela grande inseguran&#231;a das &#225;reas urbanas. Os
23 milh&#245;es de habitantes est&#227;o longe de se beneficiar da biodiversidade, da
etnodiversidade, de suas riquezas culturais e da produ&#231;&#227;o de madeira e minerais. O IDH
(&#205;ndice de Desenvolvimento Humano, da ONU) da regi&#227;o equivale ao dos paises mais
pobres do planeta.
Em termos ambientais oferecemos, ano apos ano, o maior espet&#225;culo de
pirot&#233;cnica ao queimarmos mais florestas para virarem pasto. O desmatamento e as
queimadas da Amaz&#244;nia tornam o Brasil um dos principais paises emissores de gases que
contribuem para o efeito estufa. As mudan&#231;as clim&#225;ticas s&#227;o irrevers&#237;veis.
Em termos de biodiversidade, em apenas 4% da superf&#237;cie terrestre a Amaz&#244;nia
continental deve abrigar mais de 1/5 da biodiversidade do planeta. Nas &#225;reas mais
comprometidas, como no entorno de Bel&#233;m, por exemplo, &#188; das aves est&#227;o amea&#231;adas
de extin&#231;&#227;o. Uma vez extinta uma esp&#233;cie, esta extin&#231;&#227;o &#233; para sempre.
Em termos ambientais, de 1.500 a 1.964 desmatamos menos de 1% da Amaz&#244;nia.
Nos &#250;ltimos 40 anos desmatamos cerca de 16% da regi&#227;o. uma &#225;rea equivalente a duas
vezes a Alemanha (ou tr&#234;s estados de S&#227;o Paulo) em pasto. Esta &#225;rea de 750 mil km2 &#233;
duas vezes maior que a &#225;rea agr&#237;cola do pais. Pior, 1/4 desta &#225;rea encontra-se
abandonada porque o objetivo de derrubar o mato foi o de tomar a posse da terra, para
dizer: aqui tem dono.
No momento estamos perdendo cerca de 24 mil km2 de cobertura nativa ao ano.
Isto significa que a cada ano estamos desmatando uma &#225;rea equivalente a 2/3 da B&#233;lgica
(ou do estado de Sergipe).
A cada ano perdemos cerca de 1% do que resta da floresta amaz&#244;nica. Se nada for
feito teremos perdido mais da metade da floresta nos pr&#243;ximos 30 anos. Eu n&#227;o autorizei.
Voc&#234; autorizou?

Estamos apenas medindo a febre e n&#227;o combatendo as causas da doen&#231;a. A febre
em um doente alerta que algo vai errado, &#233; apenas um &#237;ndice. H&#225; grande como&#231;&#227;o quando
os &#237;ndices de desmatamento s&#227;o expostos ao vexame p&#250;blico, e pouco interesse em
discutir as verdadeiras raz&#245;es de seu crescimento.
S&#227;o os grandes fazendeiros! - apontam uns! &#201; a expans&#227;o da soja! - sugerem
outros. &#201; a abertura de estradas, a inefic&#225;cia e aus&#234;ncia do poder p&#250;blico, o aumento das
fazendas, os madeireiros, os garimpos, e assim por diante... Ser&#225; que n&#227;o continuamos na
periferia do problema? Ser&#225; que estamos apontando apenas as conseq&#252;&#234;ncias de atos
que praticamos em nosso dia-a-dia, de forma relapsa, impensada e, digamos,
irrespons&#225;vel?

*Os respons&#225;veis somos n&#243;s!*

Ser&#225; que estamos fazendo as perguntas certas? Quem &#233; respons&#225;vel pela maior
parte dos desmatamentos? N&#227;o ser&#225; dif&#237;cil responder: as propriedades rurais dedicadas &#224;
pecu&#225;ria. Trata-se apenas das grandes fazendas? N&#227;o, as pequenas e m&#233;dias t&#234;m na
pecu&#225;ria bovina e bubalina (de b&#250;falos) sua principal atividade.
E por que expande a pecu&#225;ria na Amaz&#244;nia? Certamente um fazendeiro tradicional
ir&#225; comentar: &#8220;porque &#233; mais barato produzir carne na regi&#227;o, a terra tem pouco valor, a
m&#227;o de obra &#233; barata, h&#225; pouca fiscaliza&#231;&#227;o dos &#243;rg&#227;os ambientais, trabalhistas e da
receita federal&#8221;. Esta, no entanto &#233; uma resposta insatisfat&#243;ria. Afinal, esta carne vai para algum
lugar. Algu&#233;m consome este produto. Os dados s&#227;o claros: mais de noventa por cento da
carne produzida na Amaz&#244;nia &#233; consumida no pr&#243;prio Brasil, a maior parte nas regi&#245;es de
maior poder econ&#244;mico &#8211; Sul e Sudeste. O crescimento do consumo de carne bovina &#233;
significativo. A cada dia mais e mais pessoas querem a sua picanhazinha e a sua
maminha.

Em quarenta anos, de 1964 a 2004, o rebanho bovino da Amaz&#244;nia saltou de 1,5
para 60 milh&#245;es de cabe&#231;as. Parte deste rebanho &#233; clandestino. Este lote de animais
prontos para morrer para saciar o desejo de comer carne bovina representa 1/3 do
rebanho brasileiro. Tr&#234;s cabe&#231;as de boi para cada habitante da Amaz&#244;nia. No Brasil j&#225; h&#225;
mais bois que gente!

A pecu&#225;ria &#233; a principal atividade econ&#244;mica rural da Amaz&#244;nia. N&#227;o se trata
apenas de grandes e m&#233;dios propriedades (estes s&#227;o 25 mil fam&#237;lias com &#225;reas acima de
500 hectares). A maior parte dos 400 mil pequenos propriet&#225;rios rurais da Amaz&#244;nia tem
na pecu&#225;ria a sua principal fonte de renda (seja pelo fracasso das demais atividades
econ&#244;micas, seja pela completa incompreens&#227;o do que seja a natureza amaz&#244;nica ou
impaci&#234;ncia com a Natureza, preferindo carboniza-la a conduzir a dan&#231;a da
sustentabilidade).

Lembremos que estamos em um pa&#237;s onde a maioria vive em grande carestia. Se
n&#227;o fosse devido o baixo poder aquisitivo do brasileiro o consumo de carne seria pelo
menos o dobro. O brasileiro come, em m&#233;dia, um bife pequeno por dia (100 gramas) - 36
kg de carne/ano.

Um boi de 16 arrobas tem em m&#233;dia 240 kg de carne. Se voc&#234; comer carne bovina
durante sua vida (72 anos &#8211; a idade m&#233;dia do brasileiro), isto significa um boi a cada 6,6
anos, 11 bois inteiros durante a vida &#8211; 2,6 toneladas de carne! Destes 11 bois, pelo menos
4 ter&#227;o vindo da Amaz&#244;nia, ou seja, a cada tr&#234;s dias o brasileiro come um bife da
Amaz&#244;nia.

Sabe-se que este &#233; um &#237;ndice m&#233;dio. O consumidor da classe alta e m&#233;dia chegam
a comer mais de 3 vezes esta cifra - 108 kg/carne bovina/ano. Ou seja, um caminh&#227;o com
32 bois, mais de 7,5 toneladas de carne em sua vida!

p(highlight). A insist&#234;ncia do modelo mundial de ocupa&#231;&#227;o do solo, que privilegia a pecu&#225;ria &#233; o
principal respons&#225;vel pela fome e desigualdade na &#225;rea rural do Planeta.

*Quanto custa para a Humanidade este bife?*

A insist&#234;ncia do modelo mundial de ocupa&#231;&#227;o do solo, que privilegia a pecu&#225;ria &#233; o
principal respons&#225;vel pela fome e desigualdade na &#225;rea rural do Planeta. A quantidade de
&#225;gua, solos e recursos utilizados para produzir um quilo de carne seria suficiente para
alimentar pelo menos 50 pessoas.
A expans&#227;o da pecu&#225;ria &#233; respons&#225;vel por pelo menos 2/3 dos desmatamentos das
florestas tropicais do planeta. Estas j&#225; ocuparam 16% do planeta. Hoje ocupam menos de
9%. Da II Guerra Mundial at&#233; hoje perdemos mais de 3% das florestas tropicais do
planeta. Por qu&#234;? Principalmente porque h&#225; gente querendo comer carne bovina.
A pergunta que fazem os fazendeiros &#233;: quanto o bife custa no seu prato? A
pergunta que deve inquietar o cidad&#227;o deste planeta &#233;: &#8220;quanto custa de esfor&#231;o &#224;
Humanidade para voc&#234; ter o luxo de um bife em seu prato?&#8221;

A pecu&#225;ria &#233; o pior empregador que existe no planeta. A mis&#233;ria brasileira no
campo pode ser resumida a uma frase: a pecu&#225;ria bovina expulsou o homem do campo.
Numa grande fazenda na Amaz&#244;nia, emprega-se diretamente uma pessoa a cada
setecentos bois, que ocupa uma &#225;rea de 1 mil hectares. A mesma &#225;rea com agricultura
familiar empregaria pelo menos 100 vezes mais, com agro-floresta em permacultura
empregaria 250 pessoas!
A pecu&#225;ria gera pouca renda e esta &#233; praticamente transferida para fora das regi&#245;es
produtoras. A ilha do Maraj&#243;, uma &#225;rea do tamanho da Su&#237;&#231;a, ap&#243;s duzentos anos de
pecu&#225;ria (bovina e bubalina), tornou-se uma das &#225;reas mais pobres da Amaz&#244;nia - e do
planeta &#8211; com &#237;ndices de desenvolvimento humano (IDH) equivalentes aos de Bangladesh.
Em Chaves, no Maraj&#243;, um quarto das crian&#231;as est&#225; fora da escola e 77% das crian&#231;as
n&#227;o tem luz em suas escolas!
A pecu&#225;ria &#233; altamente concentradora de renda. Inexiste uma &#250;nica regi&#227;o do Brasil
onde a pecu&#225;ria promoveu o desenvolvimento com justi&#231;a social. Pior, a maior parte dos
fazendeiros perde dinheiro com a atividade. Como n&#227;o sabem fazer contas n&#227;o percebem
que est&#227;o ficando mais pobres a cada dia e que pouco poder&#227;o oferecer a seus filhos e
netos. Os estudos cient&#237;ficos do Imazon apontam que a pecu&#225;ria &#233; t&#227;o ineficiente que, em
m&#233;dia, n&#227;o oferece uma renda superior &#224; da caderneta de poupan&#231;a. Ou seja, seria mais
negocio ao pecuarista vender tudo o que tem e viver do dinheiro aplicado.
Por qu&#234;, ent&#227;o, optamos pelo boi? Porque n&#227;o pensamos, somos t&#227;o bovinos
quanto a ilustre e inocente criatura. N&#227;o medimos conseq&#252;&#234;ncias. Pautamo-nos pelo
passado. N&#227;o questionamos se o que nossos pais e av&#243;s fizeram seria o melhor para n&#243;s,
para nossas fam&#237;lias e para a Humanidade.
Nem sempre a Humanidade fez escolhas certas. Em sua maioria s&#227;o escolhas
c&#244;modas. N&#227;o medimos as conseq&#252;&#234;ncias. No entanto, estamos diante de uma
encruzilhada &#8211; ou transformamos a Amaz&#244;nia em um imenso pasto ou iremos entregar &#224;s
futuras gera&#231;&#245;es a mais diversa e bela floresta tropical do planeta. A escolha &#233; sua. E de
mais ningu&#233;m.

*Quinhentos anos de atraso*

N&#227;o h&#225; por que se assustar com esta responsabilidade. O Brasil &#233; o campe&#227;o da
falta de percep&#231;&#227;o ambiental e social. A pecu&#225;ria bovina &#233; sin&#244;nimo da hist&#243;ria da
ocupa&#231;&#227;o do Brasil. Desde que o primeiro europeu colocou seus p&#233;s no Brasil, foi seguido
pela pata do boi. O v&#237;rus da gripe, o boi, a b&#237;blia e a arma de fogo modificaram este
continente &#8211; dif&#237;cil saber o que causou mais danos.
O boi &#233; uma fonte de prote&#237;nas de baix&#237;ssima efici&#234;ncia energ&#233;tica (converte em
carne meros 7% do que come). Com sua pata compacta o solo, causa eros&#227;o e destr&#243;i as
micro-bacias e o seu consumo traz s&#233;rias conseq&#252;&#234;ncias &#224; sa&#250;de.
O boi &#233; um trator funcionando 24 horas. E por qu&#234;? Para saciar a vontade de comer
picadinho, hamb&#250;rguer e estrogonofe. Para transformar o Brasil no maior pasto do planeta
foi preciso &#8220;abrir&#8221; espa&#231;o para este animal. &#8220;Mato&#8221; (leia-se: floresta tropical com grande
diversidade biol&#243;gica) n&#227;o alimenta boi. As florestas tem que ceder lugar ao pasto.
Poder&#237;amos resumir a hist&#243;ria do desaparecimento da Natureza do Brasil em uma &#250;nica
l&#225;pide: &#8220;virou bife&#8221;. Em 500 anos reduzimos os 1,5 milh&#245;es de hectares da Mata Atl&#226;ntica
(floresta tropical atl&#226;ntica) a meros 7% de sua &#225;rea original, a Caatinga para menos de
20% e o Cerrado para menos de 25% de sua &#225;rea. Pior: a degrada&#231;&#227;o continua, de
maneira acelerada.
Insistimos em ocupar novos pastos na Amaz&#244;nia ao inv&#233;s de melhor a
produtividade do que j&#225; se transformou em pasto no Sul, Centro-Oeste e Sudeste. O Brasil
continua um pa&#237;s irrespons&#225;vel em termos de produtividade na pecu&#225;ria. Dos 850 milh&#245;es
de hectares do Brasil, h&#225; no pa&#237;s cerca de 250 milh&#245;es de hectares de pasto(cerca de 30%
do pais). Deste total, cerca de 30% est&#225; na Amaz&#244;nia - 75 milh&#245;es de hectares. A
produtividade na Amaz&#244;nia &#233; p&#237;fia &#8211; 0,7 cabe&#231;as/hectare - s&#237;mbolo da incompet&#234;ncia em
compreender e tratar o meio f&#237;sico amaz&#244;nico. Vamos lembrar que o Brasil todo possui
cerca de 50 milh&#245;es de hectares em &#225;rea plantada!
Neste ritmo, em duas d&#233;cadas teremos mais bois na Amaz&#244;nia do que a totalidade
do rebanho brasileiro atual (170 milh&#245;es de cabe&#231;as). No Brasil j&#225; h&#225; mais bois que
brasileiros.

Resumo de nossa hist&#243;ria: o Brasil virou pasto e nossa grande contribui&#231;&#227;o &#224;
humanidade foi substituir a maior floresta tropical do planeta em churrasquinho. Carne com
gosto de fuma&#231;a, viol&#234;ncia e extin&#231;&#227;o de esp&#233;cies. Apesar da ditadura militar ter se
desmilinguido nos anos 1980 a Amaz&#244;nia continua sob o dom&#237;nio do medo, da lei do mais
forte, do coronelismo, da grilagem de terra, da corrup&#231;&#227;o e do incentivo fiscal a quem dele
n&#227;o necessita. Quem manda &#233; o rev&#243;lver e a motoserra. Um boi vale mais que uma vida.

*Por qu&#234;?*

Porqu&#234; insistimos em incorrer nos mesmos erros que nossos antepassados
europeus, para quem a &#8220;pata de vaca&#8221; era sin&#244;nimo de progresso. O boi &#233; celestial. O
mato &#233; o dem&#244;nio. O arame farpado &#233; progresso. A floresta calcinada &#233; progresso. O
mugido do boi &#233; progresso. O pasto, que pode ser medido e contabilizado &#233; celestial.
O pa&#237;s continua a tratar a Amaz&#244;nia como uma &#225;rea ainda n&#227;o conquistada, um
imenso estoque de terra pronto para virar pasto. E mais, a Amaz&#244;nia como fonte
inesgot&#225;vel de madeira, peixe, ouro, alum&#237;nio, energia el&#233;trica etc.
As pol&#237;ticas p&#250;blicas e a maior parte das empresas despreza os 10.000 anos de
conviv&#234;ncia com a floresta tropical. Desta aprendizado passo a passo, de descoberta do
ser e viver. O Brasil trata as comunidades ind&#237;genas e a caboclas como culturas
&#8220;primitivas&#8221;, &#8220;b&#225;rbaras&#8221; e &#8220;demon&#237;acas&#8221;. O mato, o espa&#231;o do desconhecido, do que n&#227;o
pode ser controlado, &#233; o antro do medo, da escurid&#227;o. &#201; no mato que est&#227;o os piores
horrores.
N&#227;o haver&#225; aqui uma invers&#227;o de valores? Estamos prontos a reconhecer este
erro? Ou continuaremos a nos ufanar que temos o maior rebanho comercial do planeta?
Que nossos bois s&#227;o &#8220;bois verdes&#8221;, comem s&#243; capim?
Vamos continuar a nos enganar? Seremos honestos com as futuras gera&#231;&#245;es?
Quem est&#225; disposto a pensar um novo Brasil? Seremos os bois-de-pres&#233;pio da vez, que
sentam-se na lanchonete e devoram silenciosos seus hamb&#250;rgueres?

*O desafio*

Cabe a n&#243;s, e t&#227;o somente a n&#243;s todos, sermos diligentes e eficientes em propor
um novo pacto civilizat&#243;rio para a Amaz&#244;nia, capaz de diminuir a press&#227;o sobre as
popula&#231;&#245;es nativas e o meio ambiente. Seus 23 milh&#245;es de habitantes, com amplas
necessidades de consumo, inclusive de prote&#237;nas, demandam respostas r&#225;pidas. Afinal,
come-se a Amaz&#244;nia tr&#234;s vezes ao dia, no caf&#233;-da-manh&#227;, no almo&#231;o e no jantar.
Deste total h&#225; 7 milh&#245;es de habitantes na zona rural, dos quais cerca de 2 milh&#245;es
vivem em trinta mil comunidades tradicionais, em sua maioria com acesso prec&#225;rio a
servi&#231;os p&#250;blicos de educa&#231;&#227;o, sa&#250;de, &#225;gua, esgotos, energia, seguran&#231;a e assist&#234;ncia
t&#233;cnica agr&#237;cola.
N&#227;o estar&#225; na hora de nos transformarmos de destruidores em enriquecedores da
natureza. Ser&#225; que n&#227;o bastam os 75 milh&#245;es de hectares j&#225; desmatados da Amaz&#244;nia
(&#225;rea superior a toda &#225;rea agr&#237;cola do pa&#237;s) para revolucionarmos nossa compreens&#227;o de
floresta tropical produtiva?
N&#227;o ser&#225; a hora de formarmos agricultores da sustentabilidade (permacultores),
criadores de peixe, guarda-parques, guias de ecoturismo, artes&#227;os, madeireiros
cuidadosos, cientistas e estudiosos do saber local?
E n&#243;s, continuaremos a ser meros telespectadores? Corrigindo, na verdade, somos
mais que telespectadores, somos os que financiam este processo, silenciosamente, nas
g&#244;ndolas de supermercado, nos espetinhos, nos past&#233;is de carne...Mais do que rebanhos
de consumidores, de cabe&#231;a baixa, nossa ignor&#226;ncia alimenta a injusti&#231;a e a destrui&#231;&#227;o.
Aceitamos, silenciosamente, que as coisas continuem como est&#227;o.

*Medidas pr&#225;ticas para o dia de hoje*

Voc&#234; pode mudar a Amaz&#244;nia a partir de agora. A sua decis&#227;o de consumo afetar&#225;
profundamente o que se produz na Amaz&#244;nia.

Ao n&#237;vel individual:

- se voc&#234; come carne, pergunte a quem lhe vende, de onde vem a carne para saber
se voc&#234; est&#225; comendo ou n&#227;o a Amaz&#243;nia?

- Se voc&#234; mora fora do Brasil &#8211; pergunte se &#233; mesmo imprescind&#237;vel vir carne da
Amaz&#243;nia e das outras florestas tropicais (muitas vezes voc&#234; come a Amaz&#243;nia na
forma de soja, que ao inv&#233;s de alimentar pessoas &#233; dado a porcos, galinhas e
vacas)?

p(highlightr). Teremos que olhar a Amaz&#244;nia de outra forma, n&#227;o atrav&#233;s dos olhos bovinos que esmagaram o futuro nos &#250;ltimos cinco s&#233;culos. &#201; preciso que aceitemos que n&#227;o somos bois-de-pres&#233;pio nem bois-de-piranha. Somos seres capazes de decidir o que queremos.

- Que medidas o poder p&#250;blico pode tomar agora por meio de decreto: aumentar a
taxa do imposto territorial rural das &#225;reas de pastagens, modificar a f&#243;rmula de
c&#225;lculo do imposto de renda dos fazendeiros, fiscalizar com seriedade as quest&#245;es
ambientais, trabalhistas e tribut&#225;rias da cadeia produtiva da carne na Amaz&#244;nia.

Ao n&#237;vel coletivo nacional:

- N&#227;o seria oportuno discutir uma morat&#243;ria de alguns anos, digamos, quatro anos,
onde nenhuma autoriza&#231;&#227;o de desmatamento fosse concedida. N&#227;o seria este um
tipo de compromisso que um novo presidente da Rep&#250;blica deveria assumir?

- N&#227;o seria oportuno organizar um amplo programa de reeduca&#231;&#227;o para fazendeiros
e suas fam&#237;lias, permitindo que fossem capacitados em t&#233;cnicas sustent&#225;veis de
conviv&#234;ncia com a floresta? Afinal, eles s&#227;o pessoas como n&#243;s, que s&#243; querem ter
uma vida digna para si e seus familiares. A pecu&#225;ria &#233; apenas o meio de vida que
se lhes coube e que sabem trabalhar.

Ao n&#237;vel coletivo internacional:

- N&#227;o est&#225; na hora de efetivamente discutir a rela&#231;&#227;o entre a destrui&#231;&#227;o das florestas
tropicais do globo e a pecu&#225;ria e o consumo de madeiras tropicais?

Teremos que olhar a Amaz&#244;nia de outra forma, n&#227;o atrav&#233;s dos olhos bovinos que esmagaram o futuro nos &#250;ltimos cinco s&#233;culos. &#201; preciso que aceitemos que n&#227;o somos bois-de-pres&#233;pio nem bois-de-piranha. Somos seres capazes de decidir o que queremos.
E queremos justi&#231;a social, ambiente saud&#225;vel, emprego e renda com equidade. Queremos
entregar &#224;s futuras gera&#231;&#245;es a Amaz&#244;nia com a etnodiversidade, a biodiversidade e a
diversidade cultural melhor ou igual &#224;quela que recebemos.</description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 18 Fev 2010 22:00:00 -0200</pubDate>
      <link>/site/articles/26-voc%C3%AA-j%C3%A1-comeu-a-amaz%C3%B4nia-hoje</link>
      <guid>/site/articles/26-voc%C3%AA-j%C3%A1-comeu-a-amaz%C3%B4nia-hoje</guid>
    </item>
    <item>
      <title>Uma Quest&#227;o de Tudo ou Nada?</title>
      <description>&#201; certo que os direitos dos animais n&#227;o ser&#227;o conquistados da noite para o dia. Da noite para o dia as pessoas n&#227;o se conscientizar&#227;o de que os animais possuem direitos inalien&#225;veis, e ainda que o fa&#231;am, provavelmente n&#227;o adotar&#227;o o veganismo de uma vez. Certamente as pessoas n&#227;o passar&#227;o, t&#227;o r&#225;pido quanto desejamos, a considerar a pr&#225;tica de um crime contra um animal na mesma categoria que consideramos os crimes contra seres humanos. Neste ponto concordam tanto as pessoas que defendem os direitos dos animais, quanto aquelas que acham que podemos continuar explorando-os, desde velando por seu &quot;bem-estar&quot;.

No entanto, h&#225; profundas discord&#226;ncias quanto ao que se pode fazer nesse meio tempo, qual a estrat&#233;gia a ser adotada para de fato proteger os animais. Aqueles que lutam pela id&#233;ia de &quot;bem-estar&quot; animal defendem que, n&#227;o sendo poss&#237;vel promover os direitos dos animais a curto prazo, deve-se promover sua explora&#231;&#227;o de maneira mais &quot;compassiva&quot;, &quot;menos ruim&quot;. Esta id&#233;ia, obviamente, contrap&#245;e-se &#224; id&#233;ia fundamental de que os animais n&#227;o devem ser explorados e por isso ela deve ser rejeitada pelas pessoas que acreditam nos direitos dos animais.

Simplesmente n&#227;o h&#225; porque comemorar quando o Centro de Controle de Zoonoses passa a &quot;sacrificar&quot; animais abandonados por um m&#233;todo menos doloroso, ou quando se aprova uma lei pelo &quot;abate humanit&#225;rio&quot; de bovinos, porque essas n&#227;o s&#227;o conquistas em favor dos direitos dos animais. Essa estrat&#233;gia apenas reafirma a id&#233;ia de que o que fazemos, que &#233; anti-&#233;tico, pode ser resolvido simplesmente alterando a t&#233;cnica. Essa id&#233;ia &#233; especialmente perigosa quando vemos que muitos &quot;protetores de animais&quot; ap&#243;iam tais mudan&#231;as como se fossem &quot;vit&#243;rias pela causa&quot;. Isso &#233; simplesmente a ant&#237;tese de qualquer reconhecimento de que animais possuem direitos inalien&#225;veis.

p(highlight). ... o que aqueles que lutam pelos direitos dos animais defendem &#233; que uma informa&#231;&#227;o que leve as pessoas a concluir algo diferente daquilo que queremos que elas concluam &#233; pior do que informa&#231;&#227;o nenhuma.

Por outro lado, em defesa dessa estrat&#233;gia, t&#234;m-se dito que a luta pelos direitos dos animais, o que convencionou-se chamar de &quot;abolicionismo&quot;, &#233; uma utopia para o momento e que os abolicionistas adotam a pol&#237;tica do &quot;tudo ou nada&quot;. Por essa pol&#237;tica de &quot;tudo ou nada&quot; entenda-se que, uma vez que a completa aboli&#231;&#227;o da escravid&#227;o animal n&#227;o &#233; poss&#237;vel, n&#227;o vale a pena lutar por pequenos ganhos. Essa m&#225; concep&#231;&#227;o &#233; obviamente falsa, como veremos a seguir.

O movimento abolicionista jamais defendeu que seja poss&#237;vel tornar as pessoas veganas da noite para o dia, e muito menos o modo de a&#231;&#227;o desse movimento fundamenta-se na pol&#237;tica do &quot;tudo ou nada&quot;. O que esse movimento defende, sim, &#233; que nem tudo o que se faz em nome dos animais &#233; em seu benef&#237;cio e que, muitas vezes, o que fazemos nos levam mais para longe de nossos objetivos. Toda a&#231;&#227;o merece uma reflex&#227;o: Que benef&#237;cios tal a&#231;&#227;o pode trazer para a causa? Vale a pena despender energia e aten&#231;&#227;o do p&#250;blico para promover objetivos que n&#227;o sejam nossos objetivos finais? Vale a pena uma entidade que se empenha em associar seu pr&#243;prio nome com a defesa dos animais ou com um estilo de vida compat&#237;vel com seus direitos promover algo que esteja em desacordo com esses objetivos? H&#225; possibilidade dessa a&#231;&#227;o contribuir de alguma forma com objetivos oposto &#224; causa?

Em verdade, o que aqueles que lutam pelos direitos dos animais defendem &#233; que uma informa&#231;&#227;o que leve as pessoas a concluir algo diferente daquilo que queremos que elas concluam &#233; pior do que informa&#231;&#227;o nenhuma. E uma a&#231;&#227;o que resulte em conseq&#252;&#234;ncias que nos levem em dire&#231;&#227;o diferente &#224;quela para a qual queremos ir e pior do que a&#231;&#227;o nenhuma. Isso n&#227;o &#233; &quot;tudo ou nada&quot;, porque &#233; poss&#237;vel fornecer &#224;s pessoas informa&#231;&#245;es parciais mas que lhes indiquem o caminho a seguir e &#233; poss&#237;vel se empenhar em pequenas a&#231;&#245;es que nos levem na dire&#231;&#227;o correta. &#201; poss&#237;vel se empenhar em uma campanha por um objetivo pontual mas que n&#227;o esteja em desacordo com os direitos dos animais. Isso &#233; significativamente diferente de adotar um objetivo que seja contr&#225;rio aos direitos dos animais, ainda que aparentemente esteja ao seu favor.

Da noite para o dia...

Quando a informa&#231;&#227;o &#233; transmitida de forma clara e indubit&#225;vel, as pessoas podem apreci&#225;-la e entend&#234;-la; n&#227;o h&#225; confus&#227;o. Ainda que as pessoas n&#227;o se sintam capazes de colocar esse conhecimento em pr&#225;tica, por uma s&#233;rie de fatores sociais, econ&#244;micos ou pela pr&#243;pria conveni&#234;ncia, o conhecimento foi adquirido. Com o tempo ele poder&#225; ou n&#227;o ser colocado em pr&#225;tica, mas isso depender&#225; exclusivamente do livre arb&#237;trio da pessoa. A mensagem foi passada e entendida, cabe &#224; pessoa come&#231;ar a segu&#237;-la t&#227;o logo sinta-se pronta.

Querer manipular a qualidade e profundidade da informa&#231;&#227;o com base no que a popula&#231;&#227;o est&#225; preparada para seguir torna a mensagem confusa e contradit&#243;ria. Os objetivos passam a se distanciar dos objetivos originais e, ainda que essa mensagem possa alcan&#231;ar a mais pessoas, ela n&#227;o representa de fato um ganho pela causa. A entidade sim, pode ganhar: doa&#231;&#245;es de particulares e de outras entidades, incentivos governamentais, alian&#231;as com outras institui&#231;&#245;es... mas isso apenas beneficia &#224; entidade e n&#227;o &#224; causa pela qual ela deveria estar lutando.

Para entendermos o preju&#237;zo desse processo de &quot;nivelamento por baixo&quot;, t&#227;o recorrente nos grupos que defendem o bem-estar animal, tomemos como exemplo outras entidades que lutam por causas nobres: O que seria da luta anti-tabagista se a Sociedade Brasileira de Pneumologia passasse a recomendar cigarros com menos nicotina e alcatr&#227;o, &quot;j&#225; que as pessoas n&#227;o v&#227;o parar de fumar da noite para o dia&quot;? O que seria da luta contra o alcoolismo se a Alco&#243;licos An&#244;nimos adotasse a id&#233;ia de que consumir cerveja &#233; &quot;menos ruim&quot; do que consumir bebidas destiladas? Se ela mantivesse um discurso do tipo &quot;j&#225; que as pessoas n&#227;o v&#227;o parar de beber da noite para o dia, pelo menos que bebam bebidas menos fortes&quot;? Se um grupo de combate &#224;s drogas pedisse para que as pessoas s&#243; fumassem maconha aos fins de semana? Que credibilidade essas entidades teriam se derivassem seu discurso para esse caminho?

No caso da defesa dos animais as quest&#245;es s&#227;o as mesmas. N&#227;o h&#225; como acreditar em uma entidade que se diga protetora de animais quando sua defesa &#233; que animais de laborat&#243;rio podem ser usados desde que o cientista se comprometa com seu &quot;bem-estar&quot;, utilizando t&#233;cnicas mais refinadas e em um n&#250;mero reduzido de animais. O que dizer de uma entidade que se empenha em participar de &quot;comit&#234;s de &#233;tica na pesquisa&quot;, como se a utiliza&#231;&#227;o de animais saud&#225;veis em experimentos cient&#237;ficos e demonstra&#231;&#245;es did&#225;ticas, de alguma forma pudesse ser justific&#225;vel pela &#233;tica?

p(highlightr). As entidades alinhadas com a id&#233;ia da promo&#231;&#227;o do &quot;bem-estar&quot; animal ... passando essa mensagem ao p&#250;blico, o que se entende &#233; que o abate de animais ... n&#227;o &#233; um erro. 

O que dizer de uma entidade que, ao inv&#233;s de pregar pelo vegetarianismo estrito, se empenha em promover um sistema de explora&#231;&#227;o animal &quot;menos ruim&quot;? Galinhas e vacas criadas soltas, sem horm&#244;nios, para a produ&#231;&#227;o de carne, leite e ovos? As entidades alinhadas com a id&#233;ia da promo&#231;&#227;o do &quot;bem-estar&quot; animal defendem que esse sistema de cria&#231;&#227;o &#233; positivo, porque os animais n&#227;o &quot;sofrem excessivamente&quot;. Referem-se aos modernos m&#233;todos de cria&#231;&#227;o mecanizada em termos negativos e fazem refer&#234;ncias &#224; &#233;poca &#225;urea em que os animais eram criados soltos na fazenda, sendo &quot;respeitados pelos fazendeiros&quot;.

Ocorre que, passando essa mensagem ao p&#250;blico, o que se entende &#233; que o abate de animais, sua explora&#231;&#227;o propriamente dita, n&#227;o &#233; um erro. Que o erro est&#225; na forma como isso &#233; feito. Fala-se em &quot;abate humanit&#225;rio&quot;, um termo totalmente fora de prop&#243;sito, porque abater um animal saud&#225;vel jamais ser&#225; um ato de compaix&#227;o, um favor que se faz para ele. Da mesma forma, fala-se em leite de vacas sem horm&#244;nios, em queijo sem coalho animal, em ovos de galinhas criadas soltas, etc, como se essas pequenas altera&#231;&#245;es no sistema de explora&#231;&#227;o fossem a solu&#231;&#227;o para o problema em si.

&#201; claro que a maior parte da popula&#231;&#227;o n&#227;o deixar&#225; de comer ovos ainda nessa d&#233;cada, nem &#233; essa a concep&#231;&#227;o daqueles que defendem os direitos dos animais. Isso n&#227;o quer dizer que os grupos de &quot;prote&#231;&#227;o&quot; animal tenham o direito de estabelecer quais ovos podem ou n&#227;o ser consumidos, porque o que se espera de um grupo que de fato respeita os animais &#233; que a mensagem seja sempre a de que &#233; errado explora-los, n&#227;o importa por quais meios.

A pessoa que cultiva um h&#225;bito alimentar on&#237;voro, uma vez que entenda e aceite esses argumentos, provavelmente n&#227;o se tornar&#225; imediatamente vegana, e nem &#233; isso que se espera que ela fa&#231;a. &#201; prov&#225;vel que ela abandone o consumo de carne vermelha, carne branca e por algum tempo ainda mantenha o consumo de ovos e latic&#237;nios. Mas porque esse tempo de transi&#231;&#227;o existe e deve ser respeitado, n&#227;o significa que devamos alterar o discurso. Consumir produtos de origem animal continuar&#225; vinculado &#224; explora&#231;&#227;o de animais, como o era no inicio, apenas que nesse momento entendemos que a pessoa esteja adaptando seu sistema e seus h&#225;bitos a uma nova situa&#231;&#227;o, que poder&#225; durar d&#233;cadas e poder&#225; estar repleta de tentativas mal sucedidas. Aqui fica claro que n&#227;o &#233; uma quest&#227;o de &quot;tudo ou nada&quot;, porque a fase de transi&#231;&#227;o existe e pode perdurar por muito tempo.

Quando grupos deixam de promover o veganismo, acreditando que as pessoas n&#227;o adotar&#227;o imediatamente esse h&#225;bito, e passam a promover algum outro h&#225;bito alimentar intermedi&#225;rio onde se fa&#231;a uso de produtos de origem animal, na verdade encontramos uma mensagem truncada, corrompida e at&#233; contradit&#243;ria. Porque toda a argumenta&#231;&#227;o em favor de um h&#225;bito alimentar vegetariano em verdade se aplica ao vegetarianismo estrito, n&#227;o servindo de suporte ao consumo de ovos, leite, mel ou outros produtos de origem animal. Parece claro que o ovo-lacto vegetarianismo &#233; um prel&#250;dio ao vegetarianismo estrito; trabalhar o ovo-lacto vegetarianismo como objetivo final contradiz o veganismo e todos os argumentos em favor do vegetarianismo.

De igual maneira, admitir que resultados obtidos de experimentos com animais n&#227;o se aplicam para seres humanos e ao mesmo tempo defender que animais necessitam continuar sendo usados em laborat&#243;rios enquanto n&#227;o forem criadas t&#233;cnicas que os substituam s&#227;o duas informa&#231;&#245;es essencialmente contr&#225;rias entre si.

Trabalhar duas frentes antag&#244;nicas &#233; contradit&#243;rio, confunde a informa&#231;&#227;o e parece mostrar que existem formas de amenizar o que fazemos com os animais, tornar sua explora&#231;&#227;o de alguma forma &#233;tica. Dessa forma, as m&#225;s obras acabam por encobrir as boas obras, e a energia dispensada para causar desinforma&#231;&#227;o &#224; popula&#231;&#227;o sobrepuja a energia gasta para produzir boas informa&#231;&#245;es. O saldo &#233; negativo.

Aboli&#231;&#227;o - o caminho a seguir...

Vemos surgir, em tempos mais recentes, um movimento de fato pelos direitos dos animais. Esse movimento ainda est&#225; se estruturando, ganhando forma, mas certamente dever&#225; diferir significativamente dos movimentos que a&#237; se encontram. Por n&#227;o adotar nenhum modelo pr&#233;-existente, possivelmente seu trabalho passar&#225; despercebido. Mas seu objetivo n&#227;o ser&#225; fazer pol&#237;tica ou aparecer, e sim promover o fim da explora&#231;&#227;o animal.

Se esse movimento vir&#225; a se constituir em uma ou mais entidades ainda n&#227;o podemos saber, mas particularmente creio que isso seja desnecess&#225;rio. Cada vez mais me conven&#231;o que as entidades podem contribuir muito pouco para o fim da explora&#231;&#227;o animal. A solu&#231;&#227;o parece n&#227;o estar nas m&#227;os de um grupo nem de pol&#237;ticas miraculosas, mas sim em uma invers&#227;o de valores de toda a sociedade e no trabalho despretensioso de seus indiv&#237;duos.

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Fonte: http://www.sentiens.net/top/PA_TRI_sergiogreif_03_top.html </description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 18 Fev 2010 22:00:00 -0200</pubDate>
      <link>/site/articles/19-uma-quest%C3%A3o-de-tudo-ou-nada</link>
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    </item>
    <item>
      <title>Quest&#227;o de &#233;tica? Parte I</title>
      <description>Neste artigo, partindo de questionamentos sobre o relativismo e subjetivismo &#233;tico, (este &#250;ltimo, tanto na sua vers&#227;o simples como no emotivismo), e ego&#237;smo &quot;&#233;tico&quot; tento demonstrar a origem do conceito de &#233;tica que se funda em bases racionais mais amplas. Discorro tamb&#233;m sobre o papel da raz&#227;o na formula&#231;&#227;o dos ju&#237;zos &#233;ticos. Logo ap&#243;s, resumo as tr&#234;s exig&#234;ncias formais das correntes de&#244;nticas e o acr&#233;scimo da quarta exig&#234;ncia substancial das correntes conseq&#252;encialistas, bem como exemplifico alguns princ&#237;pios como o da igualdade, n&#227;o-malefic&#234;ncia e leg&#237;timadefesa.


Obs: Esse artigo foi amplamente baseado no primeiro cap&#237;tulo do livro &#201;tica Pr&#225;tica, de Peter Singer e tamb&#233;m no livro Os Elementos da Filosofia da Moral, de James Rachels. Recomendo a leitura dessas obras, enquanto introdu&#231;&#245;es ao assunto em geral e tamb&#233;m enquanto an&#225;lises de casos pr&#225;ticos espec&#237;ficos de aplica&#231;&#245;es dos princ&#237;pios &#233;ticos.

O artigo &#233; divido em seis partes. Nessa primeira parte, reconstituo os limites apontados pelos autores acima &#224; vis&#227;o relativista.
PARTE I
INTRODU&#199;&#195;O

Esse artigo trata de esclarecer algumas das quest&#245;es mais freq&#252;entes quando se fala no conceito de &#233;tica, e principalmente, quando se discute quest&#245;es de &#233;tica relativas ao status moral de animais n&#227;o-humanos. Esta &#250;ltima, especificamente, j&#225; foi amplamente debatida em meu artigo &#8220;Porquedefender a aboli&#231;&#227;ototal da explora&#231;&#227;o dos animais?&#8221;, portanto, irei discorrer aqui, na maior parte do tempo, unicamente sobre o conceito de &#233;tica.

Quando se discute a quest&#227;o de matar animais n&#227;o-humanos para comer, ou da experimenta&#231;&#227;o animal, que s&#227;o duas quest&#245;es de &#233;tica (como irei expor a seguir), s&#227;o muito freq&#252;entes as seguintes perguntas:

(1) Que direito tem os defensores dos animais de impor suas cren&#231;as aos outros?

(2) Mas, a &#233;tica n&#227;o &#233; relativa &#224; sociedade em quest&#227;o?

(3) Certo e errado n&#227;o dependem sempre da opini&#227;o da maioria?

(4) Mas, a &#233;tica n&#227;o &#233; algo subjetivo? Eu tenho a minha e voc&#234; tem a sua, e ningu&#233;m fala mal uma da outra? Ent&#227;o, pra que debater sobre isso?

(5) Certo e errado n&#227;o existem. Pra que debater sobre isso?

Essas id&#233;ias s&#227;o muito fortes no senso comum, e &#233; preciso analisar cada uma delas antes de adentrar propriamente no conceito de &#233;tica.

1 - MORAL E &#201;TICA; &quot;&#201;&quot; E &quot;DEVERSER&quot;; DESCRI&#199;&#213;ES, NORMAS E PRESCRI&#199;&#213;ES.

&#201; consenso geral de que, quando falamos em morale &#233;tica(comentarei sobre os dois termos no decorrer do artigo) estamos falando, ainda que sem mencionar, nos conceitos de certo/errado. A maior parte do tempo em que n&#243;s falamos nesses conceitos, n&#227;o estamos apenas descrevendo que uns acham algo certo, outros acham algo errado, estamos na verdade buscando uma base para dizer porque tal coisa deve ser considerada certa e porque tal coisa deve ser considerada errada (digamos, uma norma), o que implica em que tal coisa deve serfeita, e tal coisa n&#227;o deve serfeita (a norma prescreveria algumas a&#231;&#245;es ou n&#227;o-a&#231;&#245;es). Nesse sentido, a &#233;tica trata ent&#227;o do que deve ser, e n&#227;o do que &#233;.

&#201; verdade que, certos autores, principalmente na &#225;rea de antropologia e psicologia, abordam a quest&#227;o do conceito de &#233;tica como apenas descritivo. Analisam determinada sociedade e descobrem o motivo daquele povo agir de tal maneira, ou analisam determinado indiv&#237;duo e descobrem o motivo desse agir de tal maneira. Esses autores est&#227;o trabalhando ent&#227;o, unicamente com um conceito descritivo. Essa forma de abordagem, est&#225; mais perto de descrever a moral (no sentido da origem da palavra em latim mores = costumes) de determinada sociedade ou indiv&#237;duo, do que propriamente falar do conceito de &#233;tica. &#201; verdade que alguns autores definem &#233;tica como o estudo da moral (descritivo) sem &#233; claro, fazer ju&#237;zo de valor sobre tais costumes. Esses, abordam o que &#233;. Isso n&#227;o significa que aqueles que abordam o assunto de forma normativa (como foi exposto no par&#225;grafo anterior) n&#227;o fa&#231;am uso de conceitos descritivos. A diferen&#231;a &#233; que aqueles (do par&#225;grafo anterior) usam um racioc&#237;nio descritivo e normativo, que termina na pr&#225;tica, em prescri&#231;&#245;es, enquanto estes abordam de forma &#250;nica e exclusivamente descritiva.

Por&#233;m, n&#227;o usamos apenas descri&#231;&#245;es quando entramos em quest&#245;es como status moral dos animais, aborto, eutan&#225;sia, infantic&#237;dio, estupro, genoc&#237;dio, impacto ambiental, etc. Essas quest&#245;es sugerem uma abordagem normativa/prescritiva e n&#227;o descritiva, ou seja, estaremos tratando do que deve ser, e n&#227;o do que &#233;. Agora, o conceito de valor &#233; essencial para o desenvolvimento de uma &#233;tica, diferentemente dos estudos meramente descritivos, poisagora, algo deve acontecer, e algo n&#227;o deve acontecer (e, se afirmamos que algo deve acontecer, &#233; porque esse algo &#233; melhor do que aquilo que n&#227;o deve acontecer). Portanto, ao longo do texto, para evitar confus&#245;es, usarei os termos &#233;ticae moral, em diferentes sentidos, utilizando moral para me referir aos costumes, da esfera do s&#227;o, e ao estudo desses costumes me refiro como antropologia, e uso ent&#227;o &#233;tica para me referir &#224; quest&#245;es que tratem da esfera do deverser, ainda que alguns autores os utilizem como sin&#244;nimos (por exemplo, Singer e Rachels, que mencionei no in&#237;cio do texto) ou outros se refiram &#224; &#233;tica como o estudo te&#243;rico, seja l&#225; descritivo ou normativo da moral, pr&#225;tica.

Os proponentes das perguntas n&#250;mero 4 e 5 acreditam que n&#227;o h&#225; o que discutir, sobre qualquer coisa que envolva certo ou errado, pois, paraeles, o m&#225;ximo que conseguimos fazer &#233; descrever relativamenteou subjetivamente os conceitos de certo/errado. Para o subjetivista &#233;tico (pergunta 4) ou para o niilista &#233;tico (pergunta 5) n&#227;o faz sentido perguntar a sua opini&#227;o sobre assassinato, estupro, direitos, statusdos animais, eutan&#225;sia, abordo, genoc&#237;dio, racismo, machismo, homofobia, etc, pois para esse tipo de vis&#227;o, n&#227;o h&#225; o que discutir, j&#225; que em uma vis&#227;o (4) cadaum tem o seucerto/errado e n&#227;o h&#225; uma baseque seja poss&#237;veldistinguirqualvis&#227;o &#233; maisplaus&#237;velque a outra; e para a outra (5), certo/errado n&#227;o existem.

Para os que acreditam no subjetivismo &#233;tico e no niilismo &#233;tico, n&#227;o h&#225; sentido em algu&#233;m reivindicar seus direitos ou que algu&#233;m proponha uma lei contra o estupro, por exemplo, pois em ambas as vis&#245;es n&#227;o h&#225; sentido em existir direitos ou leis, visto que esses se destinam ao cumprimento de todos. Se a &#233;tica &#233; subjetiva, ou se certo/errado n&#227;o existe, por que fazer algo paraque todos cumpram? A menos que queiramos abandonar totalmente a id&#233;ia de direitos (incluindo os seus pr&#243;prios), leis, considerabilidade moral, justi&#231;a, igualdade, etc, &#233; preciso ir um pouco mais a fundo e entender de onde surgiram id&#233;ias n&#227;o subjetivistas de &#233;tica.

Eu insisto, por&#233;m, que a grande maioria das pessoas que defende essas concep&#231;&#245;es subjetivistas e niilistas, na verdade n&#227;o &#233; t&#227;o subjetivista ou niilista assim, visto que &#233; muito freq&#252;ente a seguinte afirma&#231;&#227;o: &quot;Eu tenho a minha&#233;tica e voc&#234; tem a sua, e ningu&#233;m pode impornada a ningu&#233;m&quot; ou &quot;Certo/errado n&#227;o existem, logo, n&#227;o venha meimporsuavis&#227;o&quot;. Por mais incr&#237;vel que pare&#231;a inicialmente, as duas frases anteriores afirmam o que pretendem negar, ou seja, essas duas frases definem um par&#226;metro bem objetivo sobre &#233;tica: &quot;n&#227;o imposi&#231;&#227;o total&quot;. Se o princ&#237;pio da &quot;n&#227;o imposi&#231;&#227;o total&quot; pode ser ou n&#227;o um princ&#237;pio &#233;tico, e, se ele realmente garante que n&#227;o haja imposi&#231;&#245;es, veremos mais adiante em outros itens do texto.

Mesmo que voc&#234; mantenha as vis&#245;es 4 e 5, pe&#231;o que leia o artigo at&#233; o fim, pois talvez seja interessante olhar para o que outras vis&#245;es t&#234;m a dizer. Independentemente disso, penso que &#233; importante deixar claro esses conceitos, pois a imensa maioria das pessoas que acredita ser subjetivista &#233;tico ou niilista &#233;tico, na pr&#225;tica n&#227;o age assim e freq&#252;entemente acha algumas coisas mais justas do que outras. Independentemente de afirmarem-se subjetivistas ou niilistas &#233;ticos, a maioria das pessoas acha algo mais &quot;certo&quot; do que outro algo, nem que seja quando est&#227;o reclamando de alguma viol&#234;ncia que sofreram. Talvez o presente artigo esclare&#231;a o porqu&#234; de muitas pessoas pensarem assim.
Segundo Peter Singer:

...&#233; verdade que alguns tendem ao subjetivismo excessivo, afirmando que uma moralidade &#233; t&#227;o boa quanto outra qualquer; mas, quando essas mesmas pessoas s&#227;o pressionadas a dizer se acreditam que a moralidade de Hitler, ou a dos traficantes de escravos &#233; t&#227;o boa quanto a de Albert Schweitzer ou a de Martin Luther King, reconhecem que, afinal, acreditam que algumas moralidades s&#227;o melhores que outras&quot; (SINGER, 2004, p. 276).

Ent&#227;o, mesmo que j&#225; aceitemos que, de fato, h&#225; uma gritante diferen&#231;a entre a moralidade de Hitler e a moralidade de Martin Luther King, precisamos adentrar nas vis&#245;es relativistas e subjetivistas, para percebemos at&#233; onde essas vis&#245;es alcan&#231;am, e onde elas n&#227;o alcan&#231;am (seus limites).

2 - FAL&#193;CIA NATURALISTA

Um dos pontos centrais do conceito de &#233;tica, &#233; que ele &#233; um conceito contr&#225;rio &#224; lei do mais forte, justamente pelo car&#225;ter normativo que o conceito de &#233;tica tem em si. Se a &#233;tica trata daquilo que deve ser, e a lei do mais forte j&#225; &#233; (ou seja, os mais fortes f&#237;sica ou ardilosamente j&#225; imp&#245;em seu ponto de vista), ent&#227;o n&#227;o tem sentido fazer uma &#233;tica apenas parajustificar a lei do mais forte, porque essa lei j&#225; se imp&#245;e pela pr&#243;pria for&#231;a. Seria perda de tempo desenvolver teorias do deverser para confirmar o que j&#225; &#233;. Durante todo o artigo, estarei relacionando esse ponto, da &#233;tica ser o oposto da lei do mais forte, de acordo com cada vis&#227;o de &#233;tica.

Aqueles que, diante da posi&#231;&#227;o de Hitler ou Martin Luther King, reconhecem que Hitler fez um grande mal &#224;s suas v&#237;timas, mas complementam afirmando: &quot;a vida &#233; assim mesmo, uns perdem, outros ganham&quot;, na verdade est&#227;o confundindo o ser com o deverser.

O fil&#243;sofo George Edward Moore (G. E. Moore) desenvolveu o conceito de fal&#225;cia naturalista, para se referir &#224;quelas teorias &#233;ticas que pretendem se justificar apelando para comportamentos naturais, ou se inspirando na natureza ou na f&#237;sica. Embora Moore tenha utilizado o conceito para mencionar que o que &#233; bom ou ruim n&#227;o pode ser retirado de conceitos naturais (o que abordarei no final do artigo), estarei utilizando aqui o termo fal&#225;cia naturalista como &#233; comumente utilizado: para demonstrar que justificar algo como tendo validade &#233;tica apelando para a natureza, &#233; apenas confundir sercom deverser. Esse erro &#233; conhecido como &quot;the Is-ought problem&quot; (o problema do ser-dever ser). O mesmo conceito se aplica a justificar algo porque &#233; um costume, ou uma tradi&#231;&#227;o. A fil&#243;sofa S&#244;nia T. Felipe argumenta que:

Moore j&#225; demonstrou que nem tudo o que &#233; natural &#233; moral, que a natureza n&#227;o nos d&#225; exemplo algum de moralidade, e qualquer argumento que apele a modelos da natureza comete uma fal&#225;cia naturalista. Se, como afirma Moore, o que &#233; natural n&#227;o &#233; moral, o que dizer, ent&#227;o, daquilo que, por ser um costume arraigado h&#225; mil&#234;nios em nossos ascendentes, parece natural, mas sequer o &#233;?&quot; (FELIPE, 2003, p. 67)
Isso n&#227;o significa, logicamente, que n&#227;o existam comportamentos que sejam naturais e que tamb&#233;m estejam de acordo com o que a &#233;tica prescreve. Significa apenas, que n&#227;o podemos derivar do que &#233; natural, o que deveria ser&#233;tico. S&#243; por algo ser o que &#233;, n&#227;o podemos deduzir desse algo, que ele deveria serassim.

Da mesma maneira, se afirmamos, baseados no subjetivismo, que Hitler estava certo em exterminar povos de outras ra&#231;as, mas tamb&#233;m afirmamos, ao mesmotempo que, estamos certos em tentar exterminar Hitler, mais uma vez, estar&#237;amos terminando na lei do mais forte. Mais uma vez, seria uma fal&#225;cia naturalista. N&#227;o &#233; disso que a &#233;tica trata.

Durante o restante do artigo, estarei, al&#233;m de examinando se cada vis&#227;o de &#233;tica n&#227;o terminaria numa fal&#225;cia naturalista, propondo tamb&#233;m que essas confus&#245;es t&#234;m acontecido, nessas vis&#245;es, porque tudo est&#225; sendo examinado do ponto de vista &#250;nica e exclusivamente do agente (aquele que realiza a a&#231;&#227;o). Do ponto de vista da &#233;tica, n&#227;o faz sentido examinar apenas o ponto de vista do agente, porque toda quest&#227;o &#233;tica envolve pacientes (os que v&#227;o sofrer a a&#231;&#227;o). Esse tema ser&#225; abordado ao longo do texto.

3 - RELATIVISMO &#201;TICO OU RELATIVISMO CULTURAL?

Talvez a id&#233;ia mais presente no senso comum, seja a de que a &#233;tica &#233; sempre relativa a uma determinada sociedade. Assim sendo, algo que seria v&#225;lido como certo em uma sociedade, essa mesma pr&#225;tica poderia ser considerada errada em outra sociedade. Pode ser que as pessoas que fa&#231;am essa afirma&#231;&#227;o, estejam querendo dizer duas coisas diferentes. Talvez estejam querendo dizer que:

(1) Se em uma determinada sociedade h&#225;, por exemplo, um ditador que persegue aqueles que n&#227;o s&#227;o da mesma ra&#231;asua, seria correto esconder essas pessoas na sua casa e mentir para enganar o ditador, e assim, conseguir salvar a vida dessas pessoas. Em uma sociedade onde n&#227;o houvesse esse ditador e situa&#231;&#245;es como essa, mentir continuaria sendo errado.[1]

Este argumento tamb&#233;m afirma o que pretende negar: que h&#225; um princ&#237;pio objetivo na mesma a&#231;&#227;o, que no caso &#233; protegeraquelesque ir&#227;o sofrer o mal. Dentro dessa vis&#227;o, o mentir ser errado ou n&#227;o, vai depender da conseq&#252;&#234;ncia da a&#231;&#227;o sobre aqueles afetados e n&#227;o necessariamente da sociedade. Tal ditador poderia muito bem surgir a qualquer momento em qualquer sociedade. Portanto, dizer que uma coisa &#233; certa se leva a uma conseq&#252;&#234;ncia, e a mesma coisa &#233; errada se leva &#224; outra conseq&#252;&#234;ncia, n&#227;o necessariamente leva a um padr&#227;o relativo de julgamento, pois o princ&#237;pio pode muito bem ser objetivo, como no exemplo anterior: protegeraquelesque ir&#227;o sofrer o mal. As teorias &#233;ticas utilitaristas (propostas por fil&#243;sofos como Jeremy Bentham, John Stuart Mill, Richard Hare, Peter Singer, entre outros) s&#227;o um exemplo de &#233;tica conseq&#252;encialista nesse sentido, pois mant&#233;m padr&#245;es objetivos (diminuir/evitar a dor daqueles afetados, por exemplo), e o valor das a&#231;&#245;es dependem das conseq&#252;&#234;ncias para os afetados. Ent&#227;o, n&#227;o s&#227;o &#233;ticas relativas, de maneira alguma. &#201; preciso n&#227;o confundir tais teorias com o relativismo.

Por&#233;m, quem afirma que a &#233;tica &#233; relativa &#224; sociedade em quest&#227;o, pode muito bemestar querendo afirmar a relatividade dos ju&#237;zos, desta maneira:

(2) Cada sociedade tem seus padr&#245;es de certo e errado, portanto, ao dizer que certas coisas s&#227;o erradas em outras sociedades, estou apenas julgando com os padr&#245;es que aprendi na minha sociedade. Portanto, &#233; etnoc&#234;ntrico julgar uma sociedade com os padr&#245;es de outra. O inverso tamb&#233;m aconteceria: as pessoas dessa outra sociedade poderiam muito bem dizer que os padr&#245;es da minha est&#227;o errados, simplesmente porque est&#227;o julgando com os padr&#245;es da sua. Como saber qual padr&#227;o &#233; melhor? N&#227;o h&#225; uma base imparcial parajulgar, j&#225; que todos os nossos ju&#237;zos s&#227;o reflexos de nossa cultura.

No decorrer do artigo, veremos se &#233; poss&#237;vel essa base imparcial. Por hora, precisamos entender de onde surgiu a id&#233;ia do relativismo nesse sentido. Segundo Peter Singer:

&quot;A forma mais fundamental de relativismo tornou-se popular no s&#233;culo XIX, quando come&#231;aram a surgir dados sobre as cren&#231;as e as pr&#225;ticas morais de sociedades mais distantes. Para o recato exagerado do per&#237;odo vitoriano, a informa&#231;&#227;o de que existiam lugares onde as rela&#231;&#245;es sexuais entre solteiros eram vistas como perfeitamente aceit&#225;veis constituiu a semente de uma revolu&#231;&#227;o nas atitudes sexuais. N&#227;o surpreende que, a alguns, o novo conhecimento sugeria n&#227;o apenas que o c&#243;digo moral da Europa do s&#233;culo XIX n&#227;o era objetivamente v&#225;lido, mas que nenhum ju&#237;zo moral pode fazer mais do que refletir os costumes da sociedade na qual &#233; criado.&quot; (&#201;tica Pr&#225;tica p. 13).

Os fil&#243;sofos marxistas adaptaram essa forma de relativismo &#224;s suas teorias, afirmando que a moralidade de uma sociedade nada mais faz do que refletir as id&#233;ias da classe econ&#244;mica dominante. Por&#233;m, isso leva a um problema: se toda moralidade &#233; relativa, o que h&#225; de especial no comunismo, ou, por que tomar o partido do proletariado e n&#227;o da burguesia[2]?

Alguns podem dizer: simplesmenteporque fazemos parte do proletariado, mas essa resposta n&#227;o consegue explicar porque seria errado a classe dominante impor suas id&#233;ias, j&#225; que eles fazem parte da classedominante. Esse argumento, inevitavelmente levaria a confirmar que aqueles que t&#234;m mais for&#231;a podem impor a sua vontade, terminando na lei do mais forte, portanto, n&#227;o passa de uma fal&#225;cia naturalista, confundindo o que &#233; com o que deverser.

Como aponta Singer, Engels abordou esse problema abandonando a id&#233;ia do relativismo, afirmando que, apesar das id&#233;ias dominantes serem as das classes dominantes (est&#225; afirmando o que &#233;, descrevendo), uma sociedade sem antagonismos de classe poderia ser uma moralidade realmentehumana[3] (no sentido que uma sociedade sem antagonismos de classe seria melhor do que uma com antagonismos, desta maneira, faz um ju&#237;zo de valor sobre como deveria ser uma sociedade melhor). Isso n&#227;o tem mais nada de relativo. Chegamos a outro padr&#227;o objetivo.

Voltando &#224; id&#233;ia do relativismo cultural comum, quando nos deparamos com uma dif&#237;cil decis&#227;o &#233;tica, n&#227;o ajuda muito saber o que a sociedade acha que devemos fazer. &#201; claro que os costumes que aprendemos podem exercer grande influ&#234;ncia sobre n&#243;s, mas, ao refletirmos sobre eles, podemos concordar com eles, ou podemos nos opor totalmente. Precisamos tomar nossa pr&#243;pria decis&#227;o[4]. Com base em que tomaremos essa decis&#227;o, da&#237; sim ser&#225; objeto de estudo da &#233;tica, como veremos mais adiante. Por enquanto, basta que percebamos que, se o argumento do relativismo diz que todos os nossos ju&#237;zos s&#227;o reflexos de nossa cultura, ent&#227;o n&#227;o consegue explicar porque alguns discordam de sua cultura.

E saber em qual sociedade aconteceu o problema, ser&#225; que ajuda a resolver nossa decis&#227;o? Vejamos um exemplo. Vamos supor que uma sociedade condene a escravid&#227;o e outra aprove a escravid&#227;o. Segundo uma vis&#227;o relativista, n&#227;o ter&#237;amos uma base para escolher qual das duas posi&#231;&#245;es tomaremos. Segundo Singer:

O ponto de vista ... de que a &#233;tica &#233; sempre relativa a uma sociedade espec&#237;fica - tem conseq&#252;&#234;ncias ainda mais implaus&#237;veis. Se a nossa sociedade condena a escravid&#227;o, ao mesmo tempo em que outra sociedade a aprova, n&#227;o temos nenhuma base a partir da qual escolher entre essas convic&#231;&#245;es antag&#244;nicas. Na verdade, n&#227;o existe realmente conflito numa an&#225;lise relativista - quando afirmo que a escravid&#227;o &#233; errada, na verdade s&#243; estou dizendo que a minha sociedade condena a escravid&#227;o, e , quando os propriet&#225;rios de escravos da outra sociedade dizem que a escravid&#227;o &#233; correta, s&#243; est&#227;o dizendo que a sua sociedade a aprova. Por que discutir? &#201; &#243;bvio que ambos poder&#237;amos estar falando a verdade. (SINGER, 2002, p. 14).

Como Singer aponta, os que defendem o relativismo est&#227;o confundindo uma descri&#231;&#227;o com uma norma. &#201; &#243;bvio que os dois podem estar falando a verdade, no sentido de que se eu digo: eu condeno a escravid&#227;o = minhasociedade condena a escravid&#227;o ou eu aprovo a escravid&#227;o = minhasociedade aprova a escravid&#227;o, estou apenas reportando um fato, uma descri&#231;&#227;o. Por&#233;m, o relativismo n&#227;o consegue explicar porque algumas pessoas que vivem numa sociedade que aprova a escravid&#227;o s&#227;o totalmente contr&#225;rias a ela. Estariam as pessoas que discordam da sua sociedade cometendo um simples erro ao dizer eu condeno a escravid&#227;o = minhasociedade aprova a escravid&#227;o? Mais uma vez, fica claro que h&#225; uma confus&#227;o entre descri&#231;&#227;o (o que &#233;) e uma abordagem normativa (o que deve ser). Os que vivem numa sociedade que aprova a escravid&#227;o e s&#227;o contra a escravid&#227;o n&#227;o est&#227;o querendo descrever nada (todos j&#225; sabem muito bemque a sociedade deles aprova a escravid&#227;o), eles est&#227;o dizendo, sim, que a escravid&#227;o n&#227;o deveria existir[5].

Interessante notar que, no fundo, a id&#233;ia do relativismo (o certo/errado depende da sociedade em quest&#227;o) se ap&#243;ia num padr&#227;o objetivo: o certo &#233; o que a maioriaou a tradi&#231;&#227;oachaque &#233; certo. Alguns podem dizer: pelo menos, seguir a opini&#227;o da maioria ou da tradi&#231;&#227;o &#233; melhor do que seguir a opini&#227;o da minoria. Seria este um padr&#227;o melhor do que qualquer outro? Vejamos como Singer aponta o problema com essa vis&#227;o:

Piorainda, o relativista n&#227;o pode, satisfatoriamente, explicar o n&#227;o-conformista. Se &quot;a escravid&#227;o &#233; errada&quot; significa &quot;minhasociedade condena a escravid&#227;o&quot;, ent&#227;oalgu&#233;mque vive numa sociedadequen&#227;o condena a escravid&#227;o est&#225; cometendo umerrosimples e factual ao afirmarque a escravid&#227;o &#233; umerro. Uma pesquisa de opini&#227;opoderiademonstrar o erro de umju&#237;zo&#233;tico. Os candidatos a reformadores acham-se, portanto, numa dif&#237;cilsitua&#231;&#227;o: quando se prop&#245;em mudar as concep&#231;&#245;es&#233;ticas de seusconcidad&#227;os, est&#227;o necessariamente incorrendo emerro; s&#243;quando conseguem induzir a maiorparte da sociedade a aceitar as suasconcep&#231;&#245;es &#233; queelas se tornam corretas. (SINGER, 2002, p. 14, grifosmeus)

Portanto, abordagens relativistas servem apenas para descrever fatos. Devemos tirar as nossas pr&#243;prias conclus&#245;es sobre as quest&#245;es &#233;ticas, pr&#225;ticas. A maioria pode muito bem se enganar. Ser&#225; mesmo que a escravid&#227;o era certa, e s&#243; depois que se convence 50%+1 de que ela &#233; errada, &#233; que ela passa a ser errada? Com base em que essas pessoas est&#227;o mudando de opini&#227;o ent&#227;o?

Na verdade, uma abordagem relativista impediria at&#233; mesmo de se tentar mudar a opini&#227;o da sociedade, porque, se o que &#233; certo &#233; o que a sociedade determina como certo, ent&#227;o, geralmente seria errado tentar mudar sua opini&#227;o[6]. Assumir o relativismo cultural possui pelomenos tr&#234;s implica&#231;&#245;es pr&#225;ticas:

(1) Ter&#237;amos que assumir que nosso (e qualquer outro) c&#243;digo moral &#233; perfeito[7];

(2) Ter&#237;amos de admitir ent&#227;o que n&#227;o existe progresso moral, pois, j&#225; que um c&#243;digo moral &#233; t&#227;o bom quanto o outro, n&#227;o podemos dizer que um c&#243;digo do passado (por exemplo, onde pessoas de pele negra eram escravas) &#233; pior do que um c&#243;digo mais recente que tenha maior considera&#231;&#227;o pelo interesse dessas pessoas[8]. Resumindo, n&#227;o poder&#237;amos mais criticar nenhuma sociedade, nem a nossa, e nem dizer que nossa sociedade melhorou ou piorou ao longo do tempo.

(3) Com isso, seria um erro ent&#227;o fazer reformas sociais, j&#225; que o certo &#233; aquilo que os ideais da sociedade ditam, ou digamos poder&#237;amos tentar reformas sociais apenas se a sociedade n&#227;o estivesse seguindo seus ideais, mas jamais poder&#237;amos criticar esses ideais, muito menos tentar mud&#225;-los[9].

A esta altura, pode surgir uma confus&#227;o, uma inseguran&#231;a: como vamos determinar, &quot;detectar&quot; o certo/errado ent&#227;o? Como encontrar uma base confi&#225;vel? Essa quest&#227;o ser&#225; abordada tamb&#233;m, a seguir, nos pr&#243;ximos itens do artigo.

Por enquanto, algumas pessoas podem propor: j&#225;quesaber o que a sociedadepensan&#227;o adianta, e saber o que a maioriapensatamb&#233;mn&#227;o adianta, devemos confiar na nossaopini&#227;opessoal. Com isso, resolver&#237;amos o problema de pensar que os que n&#227;o concordam com a sociedade ou com a maioria est&#227;o cometendo um erro, pois agora, o valor do ju&#237;zo &#233;tico depende da pessoa que est&#225; emitindo o ju&#237;zo, e n&#227;o de outros. Apesar de resolver esse problema, essa vis&#227;o, o subjetivismo &#233;tico cria automaticamente outros problemas dif&#237;ceis, como veremos na se&#231;&#227;o a seguir.

Apenas para concluir esta se&#231;&#227;o, devemos ent&#227;o lembrar que, concep&#231;&#245;es relativistas, como as demonstradas aqui (que s&#227;o as mais comumente apresentadas no senso comum), quase sempre terminam na lei do mais forte (fal&#225;cia naturalista), e confundem &#233; com deverser, al&#233;m de n&#227;o apresentarem um argumento[10] do porqu&#234; a opini&#227;o da sociedade ou a maioria deva ser aceita como correta, e al&#233;m de, no fundo, formarem um postulado objetivo (a sociedade ou a maioria est&#225; sempre certa), negando a si mesma enquanto concep&#231;&#227;o relativista. Portanto, n&#227;o s&#227;o concep&#231;&#245;es &#233;ticas plaus&#237;veis. Apenas legitimam os costumes sem explicar o porqu&#234; da regra: &quot;devemos sustentar a tradi&#231;&#227;o&quot;.

At&#233; aqui, podemos resumir os alcances e limites do relativismo assim:

(1) O alcance, de acordo com Rachels (2006, p. 31), &#233; que &quot; O Relativismo Cultural come&#231;a com uma vis&#227;o valiosa de que muitas de nossas pr&#225;ticas [...] s&#227;o somente produtos culturais.&quot; E um limite principal &#233; que &quot;Ent&#227;o comete-se o erro de inferir que, como algumas pr&#225;tica s&#227;o de uma forma, todas devem ser iguais.&quot; (2006, p. 31), porque...

(2) A conclus&#227;o de seu argumento n&#227;o deriva logicamente da premissa (ver nota n&#250;mero 5): a premissa descreve algo (as diferen&#231;as entre c&#243;digos morais de diferentes sociedades) e a partir dessa mera constata&#231;&#227;o tira a conclus&#227;o de que o que &#233; certo/errado (normativo) deve ser o que a sociedade em quest&#227;o diz (descritivamente). Deduz-se, do mero fato de que sociedades diferentes possuem c&#243;digos morais diferentes, que n&#227;o h&#225; um padr&#227;o objetivo para se falar em &#233;tica. Mesmo que realmente n&#227;o houvesse tal padr&#227;o objetivo, esse argumento n&#227;o prova isso. E, &#233; claro, tal racioc&#237;nio possui as seguintes implica&#231;&#245;es pr&#225;ticas:

(3) Discordar de qualquer sociedade (inclusive a nossa) seria sempre um erro, e tentar reformar a sociedade, um erromaior ainda;

(4) A id&#233;ia de que uma sociedade pode melhorar ou piorar teria de ser abandonada.

Existem ainda outros limites, os quais n&#227;o me aprofundarei aqui. Esses outros limites dizem respeito mais &#224; premissa do argumento, e para o que estamos analisando aqui, &#233; necess&#225;rio apenas nos concentrarmos no fato de que a conclus&#227;o n&#227;o segue da premissa.

Quanto a esses outros limites, poder&#237;amos apontar que existe uma confus&#227;o entre se pensar que o mero fato de criticar uma determinada pr&#225;tica de uma cultura &#233; consider&#225;-la inferior ou critic&#225;-la inteiramente[11]; ou ainda, esquecer que divergir sobre costumes n&#227;o necessariamente &#233; divergir sobre valores[12]; e principalmente, se esquecer de que existem certas regras que s&#227;o comuns &#224; todas as sociedades, em todas as &#233;pocas, pois s&#227;o inerentes &#224; exist&#234;ncia de qualquer sociedade[13]. Na verdade, as diferen&#231;as entre sociedades podem n&#227;o ser t&#227;o grandes assim como &#224;s vezes imaginamos. Aquelas pessoas interessadas nesses itens podem encontrar informa&#231;&#227;o adicional nas notas 11, 12 e 13. Por&#233;m, mesmo que as sociedades divergissem drasticamente em seus valores, o argumento do relativismo ainda assim seria falso.

Relembro mais uma vez, que as concep&#231;&#245;es de relativismo mostradas at&#233; aqui, est&#227;o sendo vistas unicamente do ponto de vista do agente, e n&#227;o do paciente. Na se&#231;&#227;o final do artigo, veremos como este simples detalhe muda todo a vis&#227;o do que a &#233;tica &#233;. Por enquanto (no pr&#243;ximo item), analisemos ent&#227;o o subjetivismo (veja parte 2):
REFER&#202;NCIAS BIBLIOGR&#193;FICAS:

FELIPE, S&#244;nia T. . Por uma quest&#227;o de princ&#237;pios: Alcance e limites da &#233;tica de Peter Singer em defesa dos animais. Florian&#243;polis. Funda&#231;&#227;o Boiteux, 2003

RACHELS, James. Os Elementos da Filosofia da Moral; 4a ed. Trad. Roberto Cavallari Filho; revis&#227;o cient&#237;fica Jos&#233; Geraldo A. B. Pocker...(et al.). - Barueri, SP: Manole, 2006

SINGER, Peter. &#201;tica Pr&#225;tica. 3&#170; ed. Trad. Jefferson L. Camargo. S&#227;o Paulo, Martins Fontes, 2002

SINGER, Peter - Liberta&#231;&#227;o Animal; tradu&#231;&#227;o Marly Winckler; revis&#227;o t&#233;cnica Rita Paix&#227;o. - Ed. rev. &#8211; Porto Alegre, S&#227;o Paulo: Lugano, 2004

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Luciano Carlos Cunha &#233; licenciado em Educa&#231;&#227;o Art&#237;stica com habilita&#231;&#227;o em m&#250;sica pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), ativista do GAE - Grupo pela Aboli&#231;&#227;o do Especismo, de Florian&#243;polis, e colaborador do site Sentiens Defesa Animal. E-mail: moderador@sentiens.net.



[1] 1 Cf. Peter SINGER. &#201;tica Pr&#225;tica. 3&#170; ed. Trad. Jefferson L. Camargo. S&#227;o Paulo, Martins Fontes, 2002, p. 10-13.

[2] Ibid., p. 13.

[3] Ibid., p. 13.

[4] Ibid., p. 14.

[5] Como aponta James Rachels, um problema fundamental do relativismo parece vir do argumento que essa teoria prop&#245;e: &quot;O relativismo cultural &#233; uma teoria sobre a natureza da moralidade. &#192; primeira vista parece ser bem plaus&#237;vel. Entretanto, como toda teoria do tipo, ela pode ser avaliada se sujeitada &#224; an&#225;lise racional; e, quando analisamos o Relativismo Cultural, descobrimos que n&#227;o &#233; t&#227;o plaus&#237;vel como parecia ser. [...] A primeira coisa que precisamos perceber &#233; que no &#226;mago do Relativismo Cultural h&#225; uma certa forma de argumento. A estrat&#233;gia utilizada pelos relativistas culturais &#233; discutir a partir dos fatos as diferen&#231;as entre as percep&#231;&#245;es culturais at&#233; a conclus&#227;o sobre o status da moralidade [...] Esses argumentos s&#227;o varia&#231;&#245;es de uma id&#233;ia fundamental. Eles s&#227;o casos especiais de um argumento mais geral que diz: (1) Diferentes culturas possuem diferentes c&#243;digos morais. (2) Assim, n&#227;o h&#225; &quot;verdade&quot; objetiva na moralidade. Certo e errado s&#227;o apenas quest&#245;es de opini&#227;o, e as opini&#245;es variam de cultura para cultura. [...] Podemos chamar isso de Argumento das Diferen&#231;as Culturais. Para muitas pessoas ele &#233; persuasivo. Mas, de um ponto de vista l&#243;gico, ele &#233; consistente? N&#227;o, n&#227;o &#233;. O problema &#233; que a conclus&#227;o n&#227;o segue a premissa -ou seja, mesmo que a premissa seja verdadeira, a conclus&#227;o ainda pode ser falsa. A premissa preocupa-se com o que as pessoas acreditam [...] a conclus&#227;o, por&#233;m, preocupa-se com qual &#233; realmente o caso. O problema &#233; que esse tipo de conclus&#227;o n&#227;o resulta, de uma forma l&#243;gica, desse tipo de premissa. [...] Conclui-se, do simples fato de que as pessoas discordam, que n&#227;o h&#225; &quot;verdade objetiva&quot; em geografia? &#201; claro que n&#227;o; n&#243;s nunca chegar&#237;amos a tal conclus&#227;o, porque percebemos que, em suas cren&#231;as sobre o mundo, os membros de algumas sociedades podem simplesmente estar errados. N&#227;o h&#225; raz&#227;o para pensar que se o mundo &#233; redondo, todo mundo deve saber disso. Similarmente, n&#227;o h&#225; raz&#227;o para pensar que, se h&#225; verdade moral, todo mundo deve conhec&#234;-la. O erro b&#225;sico no Argumento das Diferen&#231;as Culturais &#233; que ele tenta deduzir uma conclus&#227;o essencial sobre o assunto a partir do mero fato de que as pessoas discordam sobre isso. [...] Este &#233; um simples ponto de l&#243;gica, e &#233; importante entend&#234;-lo. N&#227;o estamos dizendo (pelo menos n&#227;o ainda) que a conclus&#227;o do argumento &#233; falsa. Ainda &#233; uma quest&#227;o aberta. O ponto l&#243;gico &#233; somente que a conclus&#227;o n&#227;o resulta da premissa. Isso &#233; importante, porque, para determinar se a conclus&#227;o &#233; verdadeira ou n&#227;o, precisamos de argumentos para seu respaldo. O Relativismo Cultural prop&#245;e esse argumento, mas infelizmente ele se mostra falacioso. Portanto, n&#227;o prova nada.&quot; (James RACHELS. Os Elementos da Filosofia da Moral; 4a ed. Trad. Roberto Cavallari Filho; revis&#227;o cient&#237;fica Jos&#233; Geraldo A. B. Pocker... (et al.) - Barueri, SP: Manole, 2006, p. 19-21)

[6] Na verdade, numa abordagem relativista, sequer poder&#237;amos tentar mudar os ideais de nossa sociedade, como abordado no exemplo dado por Rachels: &quot;Suponha que uma sociedade inicie uma guerra com seus vizinhos com o prop&#243;sito de capturar escravos. Ou que uma sociedade violentamente anti-semita e seus l&#237;deres e preparassem para destruir os judeus. O Relativismo Cultural iria nos impedir de dizer que ambas as pr&#225;ticas estariam erradas. (N&#227;o estar&#237;amos sequer aptos a dizer que uma sociedade tolerante aos judeus &#233; melhor que a sociedade anti-semita, pois isso implicaria em algum tipo de padr&#227;o transcultural de compara&#231;&#227;o) [...] Se tom&#225;ssemos o Relativismo Cultural seriamente, ter&#237;amos que considerar tais pr&#225;ticas sociais [escravid&#227;o e anti-semitismo] como imunes a cr&#237;ticas&quot;. (Ibid, p. 21, 22)

[7] Sobre isso, Rachels afirma que &quot;O relativismo cultural sugere um simples teste para determinar o que &#233; certo e o que &#233; errado: tudo o que o indiv&#237;duo precisa fazer &#233; perguntar se a a&#231;&#227;o est&#225; de acordo com o c&#243;digo de uma sociedade ou n&#227;o. [...] A implica&#231;&#227;o do Relativismo Cultural &#233; perturbadora, porque poucos de n&#243;s pensam que o c&#243;digo de nossa sociedade &#233; perfeito - podemos pensar em diversas formas pelas quais ele pode ser melhorado. Entretanto, o Relativismo Cultural n&#227;o apenas nos pro&#237;be de criticar os c&#243;digos de outras sociedades, mas tamb&#233;m nos impede de criticar o nosso pr&#243;prio, afinal, se certo e errado s&#227;o relativos quanto &#224; cultura, isso deve ser verdade para a nossa cultura, na mesma medida que &#233; para as outras.&quot; (Ibid, p. 22)

[8] Vejamos como Rachels analisa as conseq&#252;&#234;ncias de se assumir o relativismo em outro caso espec&#237;fico: &quot;A id&#233;ia do progresso moral &#233; posta em d&#250;vida. Geralmente, pensamos que pelo menos algumas mudan&#231;as sociais s&#227;o para melhor. (Embora, &#233; claro, outras mudan&#231;as podem ser para pior.) Durante a maior parte da hist&#243;ria do Ocidente, o lugar da mulher na sociedade era extremamente circunscrito. Elas n&#227;o podiam ter propriedades; n&#227;o podem votar ou ter cargos oficiais p&#250;blicos; e geralmente estavam sob o mais absoluto controle de seus maridos. Recentemente, essas coisas mudaram, o que as pessoas consideram um progresso. [...] Se o Relativismo Cultural est&#225; correto, entretanto, podemos considerar isso legitimamente como um progresso? Progresso significa substituir uma forma de fazer as coisas por uma forma melhor. Mas segundo qual padr&#227;o julgamos que uma nova forma &#233; melhor? Se as antigas formas estavam de acordo com os padr&#245;es sociais de sua &#233;poca, ent&#227;o o Relativismo Cultural diria que &#233; um erro julg&#225;-las de acordo com os padr&#245;es de uma &#233;poca diferente. A sociedade do s&#233;culo XVIII era uma sociedade diferente da que temos hoje. Dizer que progredimos implica um julgamento de que a sociedade de hoje &#233; melhor, o que &#233; somente um tipo de julgamento transcultural que de acordo com o Relativismo Cultural, &#233; imposs&#237;vel.&quot; (Ibid, p. 22)

[9] Segundo Rachels, caso assumirmos uma vis&#227;o relativista, &quot;Nossa id&#233;ia de reforma social tamb&#233;m ter&#225; de ser reconsiderada. Reformadores como Martin Luther King Jr. procuraram mudar suas sociedades para melhor. Dentro das restri&#231;&#245;es impostas pelo Relativismo Cultural, h&#225; uma maneira pela qual isso pode ser feito. Se uma sociedade n&#227;o est&#225; seguindo seus pr&#243;prios id&#233;ias, o reformador deve ser considerado como algu&#233;m agindo para o melhor; os id&#233;ias da sociedade s&#227;o os padr&#245;es pelos quais julgamos as propostas dele v&#225;lidas ou n&#227;o. Mas ningu&#233;m pode desafiar os pr&#243;prios ideais, pois, por defini&#231;&#227;o est&#227;o corretos. Segundo o Relativismo Cultural, ent&#227;o, a id&#233;ia de reforma social faz sentido apenas dentro desse sentido limitado.&quot; (Ibid, p. 23)

[10] Interessante notar que, quando surgem argumentos para tentar justificar algumas pr&#225;ticas, afim de sustentar uma vis&#227;o relativista, muitas vezes, tais tentativas acabam negando o relativismo, ao inv&#233;s de o sustentarem. Vejamos o exemplo de Rachels sobre a excis&#227;o (mutila&#231;&#227;o genital de meninas que ocorre em algumas sociedades africanas): &quot;Suponhamos que estamos inclinados a dizer que a excis&#227;o &#233; ruim. Estar&#237;amos meramente impondo os padr&#245;es de nossa pr&#243;pria cultura? Se o Relativismo Cultural estiver correto, isso &#233; tudo o que podemos fazer, pois n&#227;o h&#225; nenhum padr&#227;o moral de uma cultura neutra ao qual possamos recorrer. Mas isso &#233; verdade?. Mesmo os argumentos que tentam defender a excis&#227;o, mant&#233;m uma mesma caracter&#237;stica na linha de pensamento: esfor&#231;a-se para justificar a excis&#227;o mostrando que ela &#233; ben&#233;fica - acredita-se que homens, mulheres e suas fam&#237;lias se sentem melhores quando a mulher &#233; excisada. Dessa forma, podemos abordar esse racioc&#237;nio, e a pr&#243;pria excis&#227;o [que &#233; dolorosa e resulta na perda permanente do prazer sexual. Seus efeitos iniciais s&#227;o hemorragia, t&#233;tano e septicemia. Ocasionalmente a mulher morre. Os efeitos a longo prazo incluem infec&#231;&#245;es cr&#244;nicas, cicatrizes que atrapalham o caminhar e dores cont&#237;nuas], perguntando: a excis&#227;o, de forma geral, &#233; &#250;til ou prejudicial? [...] Na verdade, este &#233; um padr&#227;o que pode ser utilizado racionalmente ao se considerar qualquer pr&#225;tica social: podemos perguntar se a pr&#225;tica promove ou impede o bem-estar das pessoas afetadas por ela. E, como uma conclus&#227;o, podemos perguntar se existe um conjunto alternativo de disposi&#231;&#227;o social que faria um trabalho melhor para promover o bem-estar delas. Em caso positivo, conclu&#237;mos que a pr&#225;tica existente est&#225; inadequada. [...] Isso se parece, entretanto, exatamente com o tipo de padr&#227;o independente de moral que o Relativismo Cultural afirma n&#227;o existir.&quot; (Ibid, p. 28, 29)

[11] Segundo Rachels, &quot;...condenar uma pr&#225;tica espec&#237;fica n&#227;o &#233; afirmar que a cultura no todo &#233; desprez&#237;vel ou que &#233; de uma forma geral inferior a qualquer outra, incluindo a nossa pr&#243;pria. Poderia ter muitas caracter&#237;sticas admir&#225;veis. Na verdade, geralmente isso ocorre na maioria das sociedades humanas - elas s&#227;o misturas de pr&#225;ticas boas e ruins. Acontece que a excis&#227;o &#233; uma parte ruim.&quot; (Ibid, p. 30)

[12] Sobre, na verdade, haver menos diverg&#234;ncias do que parece, Rachels diz &quot;...n&#227;o podemos concluir que meramente por causa das diferen&#231;as de costume, h&#225; uma diverg&#234;ncia sobre valores. A diferen&#231;a nos costumes pode ser atribu&#237;vel a outros aspectos da vida social, havendo assim menos diverg&#234;ncias sobre valores do que aparenta [...] ...os dados superficiais dos antrop&#243;logos podem estar equivocados, pois podem fazer com que as diferen&#231;as de valores entre culturas pare&#231;am maiores do que s&#227;o. Os valores dos esquim&#243;s n&#227;o s&#227;o totalmente diferentes dos nossos. A quest&#227;o &#233; que a vida os pressiona a fazer escolhas que n&#243;s n&#227;o temos de fazer.&quot; (Ibid, p. 24, 25)

[13] Sobre valores comuns em qualquer sociedade, Rachels salienta que &quot;...se um grupo n&#227;o se preocupa com seus jovens, eles n&#227;o sobrevivem e os membros mais velhos n&#227;o ser&#227;o substitu&#237;dos. Ap&#243;s um tempo, o grupo desaparecer&#225;. Isso quer dizer que para qualquer grupo continuar a existir deve cuidar de seus jovens. [...] Um racioc&#237;nio similar mostra que outros valores devem ser mais ou menos universais. Imaginem como seria para uma sociedade n&#227;o colocar valor algum sob as verdades ditas. Quando uma pessoa falasse com a outra, n&#227;o haveria presun&#231;&#227;o alguma de que ela estaria dizendo a verdade, pois poderia facilmente contar mentiras. Nessa sociedade n&#227;o haveria raz&#227;o alguma em prestar aten&#231;&#227;o no que algu&#233;m diz. [...] Na verdade, para come&#231;ar, n&#227;o h&#225; motivo algum para (....) perguntar algo. Assim, a comunica&#231;&#227;o seria extremamente dif&#237;cil, se n&#227;o imposs&#237;vel. E uma vez que as sociedades complexas n&#227;o podem existir sem comunica&#231;&#227;o entre seus membros, a sociedade iria se tornar imposs&#237;vel. [...] Pode haver, &#233; claro, exce&#231;&#245;es &#224; regra: situa&#231;&#245;es nas quais a permiss&#227;o para mentir &#233; considerada. N&#227;o obstante, estas ser&#227;o exce&#231;&#245;es a uma regra que est&#225; em vigor na sociedade. [...] Poderia existir uma sociedade na qual n&#227;o houvesse proibi&#231;&#227;o em rela&#231;&#227;o ao assassinato? Como ela seria? (...) ningu&#233;m se sentiria seguro em uma &quot;sociedade&quot; como esta. (...) Aqueles que quisessem sobreviver teriam que evitar os outros ao m&#225;ximo. (...) Obviamente, as pessoas poderiam at&#233; se unir em pequenos grupos, dentro dos quais poderiam confiar umas nas outras. Mas notem o que isso significa: elas formariam pequenas sociedades que reconheceriam uma regra contra o assassinato. A proibi&#231;&#227;o contra este, portanto, &#233; uma caracter&#237;stica necess&#225;ria de todas as sociedades. [...] Existe um ponto te&#243;rico geral para ser observado aqui, a saber, que existem algumas regras morais que todas as sociedades devem ter em comum, porque s&#227;o necess&#225;rias para a exist&#234;ncia da sociedade.&quot; (Ibid, p. 25, 26)</description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 18 Fev 2010 22:00:00 -0200</pubDate>
      <link>/site/articles/21-quest%C3%A3o-de-%C3%A9tica-parte-i</link>
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      <title>Os verdadeiros argumentos abolicionistas contr&#225;rios &#224; vivissec&#231;&#227;o</title>
      <description>Os defensores dos animais, favor&#225;veis &#224; aboli&#231;&#227;o do uso do modelo animal para pesquisa da cura das doen&#231;as humanas, ao contr&#225;rio do que afirma Andr&#233; Petry, n&#227;o s&#227;o &#8220;obscurantistas zoof&#237;licos&#8221; que querem fazer parar toda pesquisa cient&#237;fica na &#225;rea da sa&#250;de e medicina humana. Andr&#233; Petry parece bastante &#8220;cego e obscurecido&#8221; por sua pr&#243;pria vis&#227;o egoc&#234;ntrica, e possivelmente ainda n&#227;o teve tempo de ler nada do que j&#225; foi publicado nos &#250;ltimos 30 anos sobre a necessidade de mudar do paradigma vivisseccionista para outro mais de acordo com os avan&#231;os tecnol&#243;gicos e cient&#237;ficos da humanidade esclarecida. Quais s&#227;o os argumentos que sustentam a posi&#231;&#227;o nada &#8220;obscurecida nem medieval&#8221;, dos abolicionistas?

O primeiro deles, &#233; que a sa&#250;de humana &#233; a sa&#250;de de uma esp&#233;cie viva, cuja biologia, fisiologia e psicologia em muito se assemelha a muitas outras esp&#233;cies vivas que habitam o planeta terra. &#201; verdade. Em nome disto, os abolicionistas sustentam que n&#227;o se pode justificar eticamente o uso de animais vivos em experimentos dolorosos e letais, porque nenhuma vida senciente &#233; substitu&#237;vel por outra, nem da pr&#243;pria esp&#233;cie, nem de qualquer outra esp&#233;cie. Estar vivo &#233; a &#250;nica e grandiosa maravilha para cada um dos seres vivos sencientes. Tirar a vida de centenas de milh&#245;es de seres sencientes para testar drogas inventadas para lidar apenas com os sintomas das doen&#231;as produzidas na esp&#233;cie humana, justificando-se que afinal as vidas destru&#237;das n&#227;o t&#234;m valor inerente algum para os seres dizimados, que seu valor s&#243; existe em rela&#231;&#227;o ao que os humanos podem fazer aproveitando-se de sua vulnerabilidade, n&#227;o &#233; argumento &#233;tico. Tal tese n&#227;o se sustenta eticamente, porque n&#227;o poderia ser usada validamente para justificar o uso de seres humanos em condi&#231;&#245;es vulner&#225;veis em experimentos semelhantes.

O segundo argumento dos defensores dos animais (erroneamente denominados por Andr&#233; Petry de &#8220;zoof&#237;licos&#8221;, o certo seria dizer zo&#243;filos, do grego zoo = animal, e philia = amor), n&#227;o se baseia na hip&#243;tese &#8220;de parar a ci&#234;ncia em nome da bicharada&#8221;, ou seja, da interrup&#231;&#227;o de toda e qualquer pesquisa cient&#237;fica, mas da aboli&#231;&#227;o de toda e qualquer pesquisa que quer ser considerada cient&#237;fica mas continua a fazer uso de animais vivos como modelo para testes de produtos qu&#237;micos e drogas que se multiplicam n&#227;o apenas desnecessariamente ao redor do planeta, sempre prometendo a cura dos males humanos que nunca chegam a ser curados, mas letalmente, por induzirem a pr&#243;pria comunidade cient&#237;fica a crer que, por serem semelhantes os organismos de animais n&#227;o-humanos e de humanos, do ponto de vista da estrutura fisiol&#243;gica e em muitos casos neurol&#243;gica e mental, tamb&#233;m do ponto de vista da estrutura molecular esta semelhan&#231;a se repita.

N&#227;o &#233; verdade que da perspectiva metab&#243;lica sejam iguais dois organismos vivos quaisquer. Se um organismo &#233; dotado de um sistema nervoso central organizado, se produz horm&#244;nios, se tem consci&#234;ncia dos eventos que o afetam positiva ou negativamente, isto &#233;, se tem emo&#231;&#245;es, este organismo assemelha-se, mas de modo algum &#233; igual a um outro organismo com as mesmas caracter&#237;sticas. N&#227;o apenas o sexo, a idade, a esp&#233;cie, a linhagem, o estatuto no grupo social s&#227;o caracter&#237;sticas que alteram significativamente as percep&#231;&#245;es de um indiv&#237;duo senciente (n&#227;o importa aqui se este indiv&#237;duo &#233; um rato, um su&#237;no, um eq&#252;ino ou um humano), mas, para al&#233;m dessas vari&#225;veis um milh&#227;o ou milh&#245;es de outras tra&#231;am uma rede imposs&#237;vel de ser escaneada em cada indiv&#237;duo animal usado como modelo ou cobaia para testes da ind&#250;stria farmac&#234;utica e qu&#237;mica. Cada indiv&#237;duo produz uma qu&#237;mica pr&#243;pria, semelhante &#224; dos pares da mesma esp&#233;cie, mas infinitamente singular. N&#227;o h&#225; dois processos metab&#243;licos exatamente iguais, embora padr&#245;es semelhantes se fa&#231;am reconhecer em indiv&#237;duos da mesma idade, sexo e linhagem.

Nos milh&#245;es de outros interferentes devemos levar em conta, desde o tipo de parceiros confinados no mesmo grupo prestes a servir de cobaia, at&#233; os sons ou ru&#237;dos produzidos ou subtra&#237;dos do ambiente no qual os animais ficam engaiolados enquanto s&#227;o usados para os experimentos. O olfato de humanos n&#227;o consegue perceber os odores que impregnam uma sala de experimenta&#231;&#227;o, desde o cheiro do shampoo usado pela estudante, at&#233; seu desodorante, esmalte de unhas, maquiagem, tecidos de suas roupas, sapatos, e outros odores de seu corpo. Multiplique-se isto por 10 ou 20 pessoas que entram e saem do laborat&#243;rio todos os dias, o que comeram dois dias antes, ou agora mesmo na lanchonete&#8230; se lavaram as m&#227;os, ou n&#227;o, ap&#243;s pagar o lanche e tocar no dinheiro fedido&#8230; ah! ainda tem o fedor de suas carteiras, suadas e manuseadas h&#225; anos, de seus bolsos, nos quais botam e tiram as m&#227;os dezenas de vezes por dia&#8230; e o cheiro de suas bolsas, de seu material cient&#237;fico, da tinta na qual o artigo acabou de ser impresso&#8230; dos produtos usados para a desinfec&#231;&#227;o do ambiente, isto, quando tal preocupa&#231;&#227;o existe&#8230; o cheiro das gaiolas, do piso, das paredes, dos qu&#237;micos usados para tornar pot&#225;vel a &#225;gua que sai da torneira, o cheiro do capacho no qual todos limpam os p&#233;s &#8230; se &#233; que o fazem, antes de entrar no laborat&#243;rio, e os cheiros que entram por debaixo das portas, nos dias de vento, de chuva, de poeira e calor&#8230; e o cheiro da roupa nova que tr&#234;s ou quatro est&#227;o usando&#8230; o cheiro do sexo que acabaram de fazer antes de virem para o trabalho vivisseccionista, e o cheiro de seus h&#225;litos infectos com fumo, &#225;lcool, frituras, refrigerantes e partes dos cad&#225;veres que acabaram de ingerir na &#250;ltima refei&#231;&#227;o&#8230; S&#227;o muitos cheiros a perturbarem o olfato dos camundongos e ratos, dos gatos e c&#227;es engaiolados como se fossem sapatos aos pares em caixinhas nas quais mal se podem mover. Cada cheiro desses desencadeia em seus organismos rea&#231;&#245;es metab&#243;licas mil, sobre as quais o pesquisador n&#227;o tem o menor controle. Por isso, n&#227;o existe o tal do &#8220;controle das vari&#225;veis&#8221;. Por isso, o que o pesquisador pensa que garante controle de vari&#225;veis em sua investiga&#231;&#227;o &#233; apenas aparente, &#233; muito pouco ou mesmo nada, quando se trata de seres que t&#234;m 300 milh&#245;es de c&#233;lulas olfativas a mais do que as nossas pr&#243;prias.

O vivisseccionista tem a soberba de dizer ao p&#250;blico que sua pesquisa &#233; cient&#237;fica, porque todas as vari&#225;veis est&#227;o sob seu controle experimental. Mentira. N&#227;o est&#227;o. E vejam, s&#243; me referi at&#233; aqui a um tipo de est&#237;mulo que altera completamente a fisiologia do animal senciente super-olfativado. N&#227;o falei dos sons. Mas os h&#225; em quantidade t&#227;o vari&#225;vel e &#8220;sem qualquer controle&#8221;, num laborat&#243;rio de vivissec&#231;&#227;o, que levam o organismo dos animais a produzirem qu&#237;micas singulares, em rea&#231;&#227;o ao que ouvem sem poderem decodificar: o som da &#225;gua que passa por dentro das paredes, nos canos embutidos. Sons que o vivisseccionista n&#227;o ouve, mesmo tendo um ouvido &#8220;superior&#8221; ao de sua cobaia. E tem ainda o som da eletricidade, que tamb&#233;m passa pelos canos embutidos nas paredes. Tamb&#233;m estes sons horr&#237;veis e estressantes o vivisseccionista n&#227;o ouve, mesmo tendo uma superioridade biol&#243;gica sobre todas as demais esp&#233;cies. Mas, no laborat&#243;rio vivisseccionista, somente os pesquisadores s&#227;o surdos, e n&#227;o apenas a estes ru&#237;dos insuport&#225;veis que s&#243; s&#227;o percebidos por ouvidos muito sens&#237;veis, os mesmos ouvidos atormentados 24 horas por dia com esses e outros ru&#237;dos ensurdecedores que n&#227;o existem no ambiente natural dos animais usados na vivissec&#231;&#227;o. E tem ainda o ru&#237;do dos computadores ligados, do ar condicionado, da impressora e dos teclados, os sons met&#225;licos dos objetos manipulados no experimento, o som dos que caem no ch&#227;o ou sobre as bases met&#225;licas. Tem o som das vozes dos 10 ou 20 vivisseccionistas que entram e saem do laborat&#243;rio conversando, rindo, chorando, gargalhando&#8230; e o de seus aparelhinhos enfiados nos ouvidos com MP3, e o de seus celulares, bips, e Ipods&#8230;. e o som dos carros l&#225; fora, de buzinas, das trovoadas, e os sons do andar superior, do inferior, de gavetas que s&#227;o abertas e fechadas, de arm&#225;rios met&#225;licos abertos e fechados, de portas met&#225;licas ou n&#227;o, de chaves passadas na fechadura, de trincos de portas manuseados, de fechos de bolsas e sacolas abertas e fechadas, de equipamentos sendo ligados ou desligados.

E h&#225;, ainda, a varia&#231;&#227;o da temperatura, da umidade do ar, da quantidade de qu&#237;micos que a companhia de &#225;guas acaba de botar para &#8220;tratar&#8221; da &#225;gua depois daquela den&#250;ncia de que a &#225;gua estava sendo servida contaminada&#8230; e o insuport&#225;vel odor da comida servida, sempre da mesma marca e com nutrientes que apenas para o vivisseccionista s&#227;o necess&#225;rios, n&#227;o para o bem-estar do animal senciente. E tem o toque do manejador, e j&#225; n&#227;o preciso descrever o que fazem ao animal em seguida.

p(highlightr). A maior parte das doen&#231;as humanas s&#227;o produzidas por h&#225;bitos que somente os humanos t&#234;m. Os abolicionistas n&#227;o pregam o fim da pesquisa genuinamente cient&#237;fica sobre a sa&#250;de humana.

Fiz apenas uma lista &#237;nfima das vari&#225;veis que interferem no metabolismo de um animal senciente, e que levam os resultados a n&#237;veis enganadores. Esta lista n&#227;o chega a 1% de tudo o que um animal usado como modelo vivo percebe. Qual o controle que o vivisseccionista tem sobre tais vari&#225;veis e outras? Mesmo que todos os animais sencientes sejam de uma mesma linhagem, de uma mesma idade, de um mesmo sexo, a intensidade de suas percep&#231;&#245;es, a exemplo do que ocorre com os humanos, varia de indiv&#237;duo para indiv&#237;duo, e mesmo num indiv&#237;duo de uma hora para outra, ou de um dia para outro.

Um terceiro argumento que leva os abolicionistas a se oporem ao uso de animais vivos na ci&#234;ncia, &#233; justamente o da perda de tempo que tal modelo tem representado para o avan&#231;o cient&#237;fico, se &#233; que a ci&#234;ncia quer mesmo encontrar a cura dos males humanos e n&#227;o apenas drogas para serem consumidas e renderem lucros &#224; ind&#250;stria farmac&#234;utica, ali&#225;s, uma das mais poderosas ao redor do planeta.

A maior parte das doen&#231;as humanas s&#227;o produzidas por h&#225;bitos que somente os humanos t&#234;m. Os abolicionistas n&#227;o pregam o fim da pesquisa genuinamente cient&#237;fica sobre a sa&#250;de humana. Eles defendem o fim do uso de animais n&#227;o-humanos como objeto destas pesquisas. Quando, afinal, os cientistas acordar&#227;o para o fato de que s&#243; se pode conhecer a etiologia das doen&#231;as humanas estudando a cl&#237;nica humana? O que os abolicionistas querem &#233; que todo o dinheiro investido hoje ao redor do planeta em modelo animal seja investido em pesquisas realmente cient&#237;ficas voltadas ao estudo da etiologia da doen&#231;a humana. N&#227;o precisa usar humanos como cobaias em experimentos b&#225;rbaros.

Mais de 50 anos de testes de drogas em animais e em humanos s&#227;o suficientes para se ter dados sobre as rea&#231;&#245;es a todas as drogas comercializadas no mundo desde a d&#233;cada de 60 do s&#233;culo XX. Basta formar um banco de dados com todos os resultados obtidos at&#233; hoje, com todos os relatos m&#233;dicos obtidos com o uso dessas milh&#245;es de drogas inventadas e usadas em cobaias humanas ao redor do planeta sem que essas cobaias tenham sequer no&#231;&#227;o de que, o que seus m&#233;dicos acabam de lhes anunciar como a droga mais recente para a cura de suas doen&#231;as, &#233; na verdade um experimento que lhes pode ser in&#243;cuo, ou mortal.

Os abolicionistas n&#227;o s&#227;o obscurantistas medievais [se &#233; que a Idade M&#233;dia foi obscurantista, embora os m&#233;dicos dos reis o fossem, ao abrirem sapos, pombos e c&#227;es para examinar suas v&#237;sceras e dar resposta aos soberanos sobre a cura ou n&#227;o de suas doen&#231;as. Os abolicionistas n&#227;o defendem esta pr&#225;tica medieval, pelo contr&#225;rio, defendem o fim dela!]. Pelo contr&#225;rio. S&#227;o seres humanos cientes do desperd&#237;cio da intelig&#234;ncia humana, que hoje &#233; treinada apenas para prescrever drogas legais tendo na parede de sua sala de trabalho um diploma da medicina. O que est&#225; sendo feito com a intelig&#234;ncia dos jovens que entram num curso de medicina com o intuito de ajudarem os seres humanos a eliminarem seus males e a curarem suas doen&#231;as? Prescrevendo drogas, ainda que legais, os jovens m&#233;dicos apenas est&#227;o matando o rim, o f&#237;gado, o est&#244;mago, a bexiga, o sangue de muitos de seus pacientes, efeito do uso de medicamentos testados largamente em animais.

Um quarto argumento abolicionista refere-se &#224;s doen&#231;as mais letais e cr&#244;nicas que afetam a esp&#233;cie humana: cardiovasculares, pulmonares, do trato digestivo e urin&#225;rio, ps&#237;quicas, dores nas costas, c&#226;ncer, degenera&#231;&#245;es neurol&#243;gicas&#8230; cur&#225;veis com a absten&#231;&#227;o, por alguns meses, de todos os produtos de origem animal [leia, Foods that Fight Pain e The Food Revolution].

Mas, milh&#245;es de camundongos e ratos s&#227;o mortos todos os anos para que uma droga seja inventada para curar os humanos de triglicer&#237;dios, hipercolesterolemia, falta de c&#225;lcio, excesso de &#225;cido &#250;rico, hipertens&#227;o, diabetes, e assim por diante. Vivisseccionistas querem por que querem fazer os que sofrem dessas doen&#231;as crerem que logo, logo, uma droga ser&#225; comercializada para livr&#225;-los dos males que eles mesmos inventam com sua dieta errada.

p(highlight). A Organiza&#231;&#227;o Mundial da Sa&#250;de tem tornado p&#250;blicos os relat&#243;rios m&#233;dicos que alertam para a necessidade de redesenhar a dieta humana

Mas, se o m&#233;dico n&#227;o prescrever nenhuma droga, se olhar para seu paciente e disser: por dois meses quero que &#8220;teste&#8221; em voc&#234; mesmo a seguinte dieta sem leite, ovos, manteiga, iogurte, carne, peixe, frango ou quaisquer de seus derivados&#8230; este m&#233;dico ser&#225; demitido da cl&#237;nica. Afinal, para que lhe foi concedido um diploma, se n&#227;o &#233; para prescrever aos pacientes as drogas legais colocadas no mercado?

A Organiza&#231;&#227;o Mundial da Sa&#250;de tem tornado p&#250;blicos os relat&#243;rios m&#233;dicos que alertam para a necessidade de redesenhar a dieta humana [leia The Food Revolution, e Diet for a New America, de John Robbins]. Mas, os cientistas querem que milh&#245;es de animais morram em suas m&#227;os at&#233; que eles tenham conseguido inventar drogas para que os humanos n&#227;o precisem abrir m&#227;o de nada que costumam comer, por mais t&#243;xico que isso seja para seus organismos.

De qualquer modo, ainda que se descobrisse uma droga para curar o alto n&#237;vel de colesterol, o uso desta droga certamente desencadearia outros males. Estes, outra vez, requereriam a vivissec&#231;&#227;o, para que o cientista pudesse encontrar uma nova droga para livrar os pacientes que houvessem usado a anterior dos males que ela produz. A cadeia vai se expandindo ao infinito. &#201; exatamente neste ponto que j&#225; nos encontramos. O que os vivisseccionistas n&#227;o querem perceber &#233; que esta trama n&#227;o apenas n&#227;o os levar&#225; ao sucesso, mas &#233; respons&#225;vel pelo seu fracasso.

A maior parte dos males dos quais padecem os humanos, hoje, ou j&#225; existia h&#225; mais de 5 s&#233;culos, ou h&#225; mais de 2 mil anos, ou resultou do uso de produtos qu&#237;micos testados em animais e colocados em alimentos, bebidas e medicamentos.

Os animais n&#227;o t&#234;m culpa alguma de nossas escolhas. Eles n&#227;o beneficiam das nossas vantagens. Eles n&#227;o t&#234;m de responder &#224;s perguntas que os cientistas deveriam estar buscando responder com a matem&#225;tica, com simula&#231;&#245;es em computador, com racioc&#237;nio sobre os dados j&#225; dispon&#237;veis ao estudioso.

Os abolicionistas, ao defenderem a liberta&#231;&#227;o dos animais de sua condi&#231;&#227;o de escraviza&#231;&#227;o, defendem a liberta&#231;&#227;o dos cientistas dessa malha que os ata e os desatina. N&#227;o achamos que os vivissectores s&#227;o maldosos e cru&#233;is. Achamos apenas que s&#227;o homens e mulheres &#8220;infelizes&#8221;, no sentido aristot&#233;lico do termo, quer dizer, s&#227;o seres racionais, que sabem o que se espera deles, por sua &#8220;excel&#234;ncia&#8221;, mas est&#227;o se condenando a fazer exatamente o contr&#225;rio do que se espera que fa&#231;am. Este &#233; o conceito de infelicidade na &#233;tica aristot&#233;lica: saber o que &#233; esperado fazer, e fazer o que leva ao contr&#225;rio do resultado esperado.

A liberta&#231;&#227;o animal &#233; a liberta&#231;&#227;o humana, a liberta&#231;&#227;o da mente e da intelig&#234;ncia humana, para que possa finalmente prestar-se &#224; finalidade mais refinada para a qual deveria ter sido aprimorada: buscar o saber, sem tirar a vida de seres vulner&#225;veis. Esta &#233; a intelig&#234;ncia que esperamos ver florescer na ci&#234;ncia biom&#233;dica. Mas os obscurantistas vivisseccionistas n&#227;o querem tornar-se inteligentes desse outro modo, pois aprenderam a obscurecer sua intelig&#234;ncia revolvendo as v&#237;sceras de animais vulner&#225;veis, em vez de aprimorarem-na, criando modelos matem&#225;ticos e computadorizados e m&#233;todos de investiga&#231;&#227;o n&#227;o-invasivos em humanos, afinal, os destinat&#225;rios finais de tanto empenho, ou n&#227;o?

E, finalmente, n&#227;o &#233; por ser aceita e defendida por &#8220;toda a comunidade&#8221; vivisseccionista, que a pr&#225;tica vivisseccionista se torna, ent&#227;o, &#233;tica. Se Andr&#233; Petry n&#227;o for obscurecido por seu furor contra os abolicionistas, deve lembrar-se de que a hist&#243;ria humana arquiva epis&#243;dios de aceita&#231;&#227;o das maiores barb&#225;ries por uma maioria, ainda que uma minoria antecipasse a cr&#237;tica &#233;tica a tais costumes ou tradi&#231;&#245;es. Foi assim, no imp&#233;rio romano, com as lutas for&#231;adas entre os gladiadores e animais; foi assim com a escraviza&#231;&#227;o dos africanos, contra a qual ningu&#233;m ousava levantar a voz, e quem o fez, no Brasil, foi condenado &#224; forca; foi assim, com o imp&#233;rio nacional-socialista europeu no s&#233;culo XX, n&#227;o apenas com um pa&#237;s inteiro formando a maioria apoiadora, incluindo-se a &#8220;comunidade dos m&#233;dicos e cientistas&#8221; favor&#225;vel a tais pr&#225;ticas; foi assim com a exclus&#227;o das mulheres, a inquisi&#231;&#227;o, a ditadura e o consumo que levar&#225; nosso planeta &#224; morte. A verdade n&#227;o necessariamente se encontra do lado do mais forte, apenas a for&#231;a est&#225; l&#225;. Quem desafia a tradi&#231;&#227;o moral dominante &#233; tachado de obscurantista. Apenas n&#227;o se disse claramente que tipo de luz ilumina a vivissec&#231;&#227;o. A &#8220;cura das doen&#231;as&#8221; humanas, infelizmente, n&#227;o &#233;. Os abolicionistas n&#227;o s&#227;o iluminados por esta luz, eles o s&#227;o, por outra: paz para todos os animais viverem o seu pr&#243;prio bem, a seu pr&#243;prio modo, sem pris&#245;es, sem grilh&#245;es, sem tormentos. Basta estar vivo para sofrer maus momentos. N&#227;o precisa nenhuma infli&#231;&#227;o de novos tormentos. 
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      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 18 Fev 2010 22:00:00 -0200</pubDate>
      <link>/site/articles/8-os-verdadeiros-argumentos-abolicionistas-contr%C3%A1rios-%C3%A0-vivissec%C3%A7%C3%A3o</link>
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      <title>A arte de largar a Bisteca: 15 perguntas e respostas para quem quer parar de comer carne</title>
      <description>*Como voc&#234; gostaria de ser comido?*

Uma da manh&#227; na capital gastron&#244;mica do Hemisf&#233;rio Sul. Estou torto de fome. Pego o carro e vou ao tradicional Ponto Chic, um porto seguro na madrugada de S&#227;o Paulo. Olho a lista de pratos do dia: &quot;Fil&#233;... fil&#233;... feijoada... espeto... peito de frango... escalope... peixe &#224; marechal... picadinho... bife grelhado. Frango assado. Peixe grelhado&quot;.
- Gar&#231;on, por favor... Eu estou morrendo de fome, mas n&#227;o como carne.
- N&#227;o come carne? A gente tem v&#225;rios pratos com frango. Frango &#224; passarinho, fil&#233; de frango &#224; cubana...
- Eu n&#227;o como nenhum tipo de carne. Nem frango.
- Ent&#227;o, eu posso oferecer pro senhor nosso fil&#233; de salm&#227;o, a gente tem tamb&#233;m a minibacalhoada, ou tamb&#233;m nosso atum ao forno...
- Peixe &#233; carne.
O pobre est&#225; tentando manter o di&#225;logo com o ser ex&#243;tico &#224; sua frente. Talvez ele n&#227;o tenha no&#231;&#227;o, mas vegetarianos tamb&#233;m necessitam de alimentos de tempos em tempos. Imploro:
- O senhor n&#227;o tem nenhum prato que n&#227;o tenha carne?
Ele pensa, pensa, pensa mais um pouco. E acha a solu&#231;&#227;o:
- J&#225; sei! A gente tem a omelete mista. Vai queijo, presunto, bacon...

p(highlight). N&#227;o estamos representados em centros econ&#244;micos mundiais por empresas de alta tecnologia, mas por restaurantes com nomes tipo &quot;Rodeio&quot; ou &quot;Porc&#227;o&quot;. N&#227;o temos revelado ao mundo muitos cientistas, mas marcamos presen&#231;a com homens de avental, com um espeto numa m&#227;o e uma faca sangrenta na outra.

&#201; preciso MUITA determina&#231;&#227;o para ser vegetariano no Brasil. Estou na p&#225;tria das churrascarias, que voc&#234; encontra em cada quarteir&#227;o de qualquer cidade, por mais miser&#225;vel que seja, com nomes de fundo meio s&#225;dico, como &quot;Ao Boi Berrando&quot; ou &quot;Novilho no Espeto&quot;. N&#227;o estamos representados em centros econ&#244;micos mundiais por empresas de alta tecnologia, mas por restaurantes com nomes tipo &quot;Rodeio&quot; ou &quot;Porc&#227;o&quot;. N&#227;o temos revelado ao mundo muitos cientistas, mas marcamos presen&#231;a com homens de avental, com um espeto numa m&#227;o e uma faca sangrenta na outra. O Brasil n&#227;o exporta softwares, mas &#233; a grande pot&#234;ncia mundial da carne de frango.

Nesse clima, como escapar da carne? N&#227;o quero aqui convencer ningu&#233;m a parar de ser carn&#237;voro. Minha briga &#233; para ter o direito de n&#227;o comer carne. Fa&#231;o parte de um grupo que cresce cada vez mais, um mercado que ganha espa&#231;o nos supermercados, que discretamente inaugura cada vez mais restaurantes. Sei que vou continuar sendo visto como um cara esquisito porque renunciei a um tipo de alimenta&#231;&#227;o. Se sinto falta? Claro que sinto! N&#227;o sou c&#237;nico de dizer que sinto repulsa ao ver um sandu&#237;che de ling&#252;i&#231;a calabresa bem passada na porta do est&#225;dio. Por que renunciar &#224; carne como alimenta&#231;&#227;o? Vegetarianos t&#234;m a pele esverdeada? &#201; verdade que s&#227;o t&#227;o fracos que mal conseguem abrir a jarra de ban-ch&#225;? Vegetarianos conseguem ter ere&#231;&#227;o? Gostam de sexo? Se acham uma mulher nua no mato, &#233; verdade que comem o mato? Para dar algumas respostas a essas e outras perguntas, preparei para a VIP este pequeno FAQ (Frequently Asked Questions, ou Perguntas Freq&#252;entemente Respondidas) sobre os mist&#233;rios do vegetarianismo.


*1. POR QUE N&#195;O COMER CARNE?*

Cada um tem sua raz&#227;o. Eu n&#227;o como carne porque sei o que isso representa de sofrimento para os animais sacrificados. Tenho a consci&#234;ncia de que, &quot;racional&quot; ou n&#227;o, sou t&#227;o animal quanto um frango ou uma sardinha. N&#227;o gostaria que eles fizessem comigo o que os humanos fazem com eles.

*2. CARNE N&#195;O &#201; FUNDAMENTAL PARA A SA&#218;DE?*

Seu m&#233;dico pode dizer isso. &quot;Pesquisas cient&#237;ficas&quot; tamb&#233;m. Existem pesquisas aos montes, ali&#225;s provando que carne &#233; o melhor gatilho para doen&#231;as cardiovasculares e a porta de entrada para muitos tipos de c&#226;ncer. Acredite na pesquisa que quiser, mas renda-se aos fatos: milh&#245;es e milh&#245;es de pessoas pelo mundo n&#227;o comem carne e vivem em perfeita sa&#250;de. (Eu cortei qualquer carne do meu card&#225;pio h&#225; um ano e nove meses, e os resultados dos check-ups est&#227;o cada vez melhores.) Desde que voc&#234; use o bom senso e o equil&#237;brio, a carne n&#227;o &#233; nem nunca foi obrigat&#243;ria na dieta de ningu&#233;m. Se o seu m&#233;dico afirma isso, procure uma segunda opini&#227;o.

*3. VEGETARIANOS S&#195;O ESVERDEADOS E FALAM MOLE?*

H&#225; 50 anos, velhos hippies achavam que podiam sobreviver com doses maci&#231;as de alface e arroz integral. Ficaram esverdeados e falando mole. Faltavam a eles prote&#237;nas. E prote&#237;nas n&#227;o s&#227;o monop&#243;lio da carne. Voc&#234; encontra prote&#237;nas em soja, leguminosas, frutas, arroz integral, gr&#227;o-de-bico...

*4. VEGETARIANOS TREPAM?*

Dizer que carne vermelha aumenta a virilidade do homem &#233; um dos golpes mais baixos da ind&#250;stria frigor&#237;fica. Fala s&#233;rio. (De novo, a experi&#234;ncia pessoal: a mod&#233;stia me impede de descrever como anda minha sa&#250;de sexual aos 53 anos de idade.) A verdade &#233; que sobram pesquisas encomendadas para provar os supostos benef&#237;cios da carne. Mas parece n&#227;o existir muito interesse em perguntar &#224;s mulheres de vegetarianos se elas andam satisfeitas com seus parceiros.

*5. OS ANIMAIS SOFREM TANTO ASSIM?*

Sofrem muito mais do que voc&#234; pode imaginar. A l&#243;gica da ind&#250;stria frigor&#237;fica transforma animais vivos e conscientes em simples mercadoria, tratados como se n&#227;o sentissem dor. Isso, na ind&#250;stria. Mas a maior parte do mercado de carne do Brasil &#233; abastecido por abatedores clandestinos, de onde n&#227;o se saiu ainda da Idade M&#233;dia, e cavalos s&#227;o pendurados vivos com as patas cortadas para sangrar.

*6. MAS OS ANIMAIS N&#195;O EST&#195;O POR A&#205; PARA NOS SERVIR MESMO?*

Essa &#233; uma quest&#227;o muito &#237;ntima e profunda. Cada um tem sua consci&#234;ncia. Mas n&#227;o adianta tratar seu cachorrinho com beijos, dizer que &quot;adora animais&quot; e depois ir comer um baby beef ou um foie gras.

*7. QUAL O PROBLEMA COM BABY BEEF E FOIE GRAS?*

S&#227;o dois pratos especialmente marcados pela crueldade. O baby beef (e a vitela) vem de um bezerro que &#233; separado da m&#227;e assim que nasce. Ele vive alguns poucos meses num caixote escuro de cimento, sem chance de se mover, e em seguida &#233; abatido. Para produzir o foie gras, gansos s&#227;o presos, e grandes quantidades de comida s&#227;o for&#231;adas pelas suas gargantas com um pil&#227;o. O foie gras &#233; a pasta de f&#237;gados inchados e apodrecidos ainda em vida. Orientais s&#227;os mestres em &quot;pratos cru&#233;is&quot;. Japoneses servem peixes ainda vivos, pulando no seu prato. Chineses torturam c&#227;es at&#233; a morte para que suas carnes fiquem &quot;macias&quot;.

*8. T&#193; LEGAL. CAPTEI A MENSAGEM. EU QUERO FAZER ALGUMA COISA A RESPEITO. E SE EU N&#195;O CONSEGUIR CORTAR TODA A CARNE DE MINHA DIETA AMANH&#195;?*

Existem muitas grada&#231;&#245;es para quem quiser tomar uma atitude. Voc&#234; pode come&#231;ar banindo j&#225; esses &quot;pratos cru&#233;is&quot;. E n&#227;o ampliando o consumo de esp&#233;cies. (Apesar das campanhas geralmente in&#250;teis para que voc&#234; coma &quot;carnes ex&#243;ticas&quot;, como as de avestruz e jacar&#233;.) Em seguida, voc&#234; pode ir cortando: primeiro a carne de porco, depois a carne vermelha, depois o frango, em seguida o peixe. (Eu, por exemplo, ainda estou na categoria dos lacto-ovo-vegetarianos. Na hora do aperto, apelo para uma omelete de queijo na boa.)

p(highlightr). A Amaz&#244;nia est&#225; sendo destru&#237;da para que a floresta vire o pasto dos bois que v&#227;o virar seu fil&#233;. Queimamos quase um Sergipe por ano para manter uma fartura artificial de carne.

*9. E SE BATER AQUELA SAUDADE DAS VELHAS DEL&#205;CIAS?*

A&#237; &#233; preciso lembrar que s&#243; uma parte dessas del&#237;cias &#233; a carne em si. Elas incluem molhos, acompanhamentos, ingredientes que fazem o resto do show. Se voc&#234; encarar uma feijoada vegetariana, vai ver que est&#225; quase tudo l&#225;: o arroz, a couve, a farofa, o molho apimentado, o feij&#227;o preto, a caipirinha. No lugar das ling&#252;i&#231;as e paios, est&#225; a santa soja. &#201; a mesma coisa? Claro que n&#227;o. Por um lado, &#233; menos saboroso. Por outro lado, muito mais saud&#225;vel.

*10. COMER CARNE PREJUDICA S&#211; OS ANIMAIS?*

N&#227;o. A Amaz&#244;nia est&#225; sendo destru&#237;da para que a floresta vire o pasto dos bois que v&#227;o virar seu fil&#233;. Queimamos quase um Sergipe por ano para manter uma fartura artificial de carne. Se voc&#234; n&#227;o se importa com isso, bom apetite.

*11. EXISTE JUNK FOOD VEGETARIANA?*

Sim, com a diferen&#231;a que n&#227;o &#233; junky. Faz bem &#224; sa&#250;de. Se existem dois produtos que &quot;enganam&quot; bem, s&#227;o as salsichas e os hamb&#250;rgueres &#224; base de soja. Um cachorro-quente com salsicha vegetal fica realmente parecido com o &quot;normal&quot;. Depende de como voc&#234; faz. Em noites de tenta&#231;&#227;o junky, eu pe&#231;o um sandu&#237;che duplo de hamb&#250;rguer (de soja) com queijo, alface, cebola, tomate, maionese e ainda mando ver no ketchup e na mostarda enquanto tra&#231;o umas fritas. Da&#237; encomendo meu colegial de chocolate para depois. Que diferen&#231;a real faz do que eu comia no balc&#227;o do BurDog quando era carn&#237;voro?

*12. &#201; F&#193;CIL ENCONTRAR RESTAURANTES VEGETARIANOS?*

De jeito nenhum! Mesmo em cidades como Rio e S&#227;o Paulo, eles s&#227;o raros. Para piorar, geralmente s&#243; abrem no almo&#231;o. &#201; como se vegetarianos n&#227;o jantassem. Uma lista de op&#231;&#245;es pode ser encontrada no site Sitio Vegetariano (www.vegetarianismo.com.br). Se estiver com muita fome de noite, v&#225; a uma churrascaria! Ela costuma oferecer grandes mesas de saladas, fora os acompanhamentos.

*13. EXISTEM VEGETARIANOS FAMOSOS OU S&#195;O TODOS AN&#212;NIMOS ESCONDIDOS?*

No Brasil, temos alguns exemplos conhecidos: [-Lob&#227;o-], Rita Lee, &#201;der Jofre, Luc&#233;lia Santos, Patr&#237;cia Travassos, Fernanda Lima. Fora daqui: Anthony Kiedis (do Chili Peppers), Chrissie Hynde, Billy Idol, Bob Dylan, Brandi, Desiree, Eddie Vedder (do Pearl Jam), Elvis Costelo, Erykah Badu, Janet Jackson, Paul McCartney, Seal, Ziggy Marley, Fiona Apple, o DJ Moby, Shania Twain, Jeff Beck, Brian May (do Queen), Pink, Justin Timberlake, Steve Vai, Kim Basinger, Penelope Cruz, William Dafoe, David Duchovny, Jorja Fox, Woody Harrelson, Natalie Imbruglia, Tobey Maguire, Natalie Portman, Reese Whiterspoon, Pamela Anderson. Voc&#234; ainda &#233; capaz de imaginar vegetarianos como um bando de an&#234;micos sem sa&#250;de vendo uma foto de Pamela Anderson?

*14. O VEGETARIANISMO &#201; UM FEN&#212;MENO RECENTE?*

Pit&#225;goras era vegetariano no s&#233;culo 6 antes de Cristo. S&#243;crates tamb&#233;m, Plat&#227;o, Leonardo da Vinci, Le&#243;n Tolstoy, Albert Einstein. (E os carn&#237;voros s&#227;o ent&#227;o &quot;mais espertos&quot;?)

*15. SER VEGETARIANO &#201; UMA GARANTIA DE SANTIDADE?*

Charles Manson era vegetariano. Adolf Hitler tamb&#233;m. Respondido?

(publicado na Revista VIP)

Nota do site do GAE: O nome do Lob&#227;o foi riscado, pois como se sabe ele n&#227;o &#233; vegetariano. Hoje, poder&#237;amos botar no lugar dele Jo&#227;o Gordo.</description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 18 Fev 2010 22:00:00 -0200</pubDate>
      <link>/site/articles/25-a-arte-de-largar-a-bisteca-15-perguntas-e-respostas-para-quem-quer-parar-de-comer-carne</link>
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      <title>A soberba vivisseccionista</title>
      <description>J&#225; na sua primeira frase, o secret&#225;rio regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&#234;ncia, de Campinas, SP, o farmacologista Jo&#227;o Ernesto de Carvalho, comete um grave erro, ao escrever coisas que n&#227;o constam do artigo de minha autoria publicado pela Folha de S. Paulo no s&#225;bado 09/11/07, no qual defendo que a ci&#234;ncia pode abrir m&#227;o do uso do modelo animal-vivo, por servir-se deste modelo sem alcan&#231;ar sucesso na &#8220;cura&#8221; dos males que afetam enorme parcela dos seres humanos ao redor do planeta.

No artigo de minha autoria n&#227;o se pode ler uma frase sequer negando que a pesquisa vivisseccionista tenha produzido drogas para tratar dos sintomas das doen&#231;as cr&#244;nicas e agudas que representam a causa da maior parte das mortes humanas a cada ano. O que afirmo &#233; que apesar das mais de seis d&#233;cadas de intensas pesquisas vivisseccionistas n&#227;o foram cumpridas as promessas de &#8220;cura&#8221; do c&#226;ncer, do diabetes, da hipertens&#227;o, dos dist&#250;rbios circulat&#243;rios, da vulnerabilidade &#224;s infec&#231;&#245;es, do mal de Alzheimer, do mal de Parkinson, da esclerose m&#250;ltipla, etc.

Minhas afirma&#231;&#245;es n&#227;o s&#227;o &#8220;sem fundamenta&#231;&#227;o cient&#237;fica&#8221;, nem &#8220;totalmente inver&#237;dicas&#8221;, conforme o afirma o autor da carta divulgada no Painel do Leitor, da Folha de S. Paulo no dia seguinte ao da publica&#231;&#227;o do meu artigo.

O autor afirma que &#8220;&#233; muito f&#225;cil de comprovar&#8221; que existem drogas que &#8220;curam&#8221; ou &#8220;controlam essas doen&#231;as&#8221;. N&#227;o nego que existam drogas que minimizam os sintomas de certas dessas e de outras doen&#231;as, em &#8220;alguns&#8221; pacientes humanos. A verdade &#233; que as mesmas drogas n&#227;o resultam na &#8220;cura&#8221;, nem no &#8220;controle dessas doen&#231;as&#8221; em muitos outros humanos. Se o resultado desses experimentos fosse &#8220;cient&#237;fico&#8221;, n&#227;o deveria resolver o mesmo problema em todos os casos? Por que os fracassos?

p(highlight). algo volumoso est&#225; escapando pelos ralos das pias dos laborat&#243;rios vivisseccionistas, n&#227;o apenas o sangue dos animais exterminados nos experimentos, mas tamb&#233;m a intelig&#234;ncia cient&#237;fica da juventude

Ao defender a aboli&#231;&#227;o da vivissec&#231;&#227;o, n&#227;o afirmo que nada do que se fez at&#233; hoje teve qualquer resultado. O que afirmo &#233; que os resultados s&#227;o p&#237;fios, levando-se em conta seis fatores: 1.) mais de meio s&#233;culo de vivissec&#231;&#227;o seguindo um &#250;nico modelo que promete ser capaz de levar o cientista aos resultados esperados, sem que os males humanos tenham sido curados pelas drogas elaboradas com base neste modelo; 2.) investimentos trilion&#225;rios feitos por governos e empresas na produ&#231;&#227;o de drogas, n&#227;o na preven&#231;&#227;o das doen&#231;as humanas; 3.) a soberba dos vivisseccionistas que afirmam junto &#224; opini&#227;o p&#250;blica que seu modelo de investiga&#231;&#227;o &#233; imprescind&#237;vel para a produ&#231;&#227;o do conhecimento humano sobre as patologias devastadoras da sa&#250;de humana; 4.) o n&#250;mero &#237;nfimo dos casos de &#8220;cura&#8221;, comparados ao assombroso n&#250;mero  de &#8220;mortes&#8221;, sofridas por humanos que fizeram uso das drogas criadas e vendidas a eles para livr&#225;-los das doen&#231;as; 5.) a diversidade da express&#227;o de uma mesma patologia em diferentes sujeitos humanos, algo imposs&#237;vel de ser &#8220;espelhado&#8221; no modelo animal-vivo empregue pelo vivisseccionista; 6.) a soberba dos vivisseccionistas que afirmam que &#8220;toda a ci&#234;ncia&#8221; estagnaria se a vivissec&#231;&#227;o fosse abolida. Com rela&#231;&#227;o a esta &#250;ltima quest&#227;o, &#233; certo que a ci&#234;ncia vivisseccionista deixaria de existir, mas da&#237; a afirmar que &#8220;a ci&#234;ncia&#8221; deixaria de existir, e que mergulhar&#237;amos nas trevas medievais, n&#227;o faz o menor sentido. Toda a ci&#234;ncia teria enormes progressos, porque os investimentos hoje consumidos pela vivissec&#231;&#227;o seriam destinados a pesquisas relevantes para a sa&#250;de humana, n&#227;o para a ind&#250;stria qu&#237;mica lucrar.

Considerando-se que o quadro das doen&#231;as devastadoras que afetam a popula&#231;&#227;o humana ao redor do planeta n&#227;o diminuiu nas duas &#250;ltimas d&#233;cadas, apesar das centenas de milhares de drogas comercializadas pela ind&#250;stria farmac&#234;utica com a promessa ao paciente e aos seus familiares, de &#8220;cura&#8221;, uma cura que na maioria absoluta dos casos nunca chega, e considerando que os investimentos em dinheiro, c&#233;rebros, equipamentos, espa&#231;o f&#237;sico e poder intelectual centrados no modelo vivisseccionista n&#227;o surtem efeitos proporcionais ao seu montante, n&#227;o seria razo&#225;vel concluir que todo esse montante devesse ser multiplicado ainda mais, com o custo que representa para os mais de 500 milh&#245;es de animais exterminados nesses experimentos anualmente, ao redor do mundo vivisseccionista.


Portanto, o autor n&#227;o deveria &#8220;ficar estarrecido&#8221; ao ler as &#8220;afirma&#231;&#245;es&#8221; contr&#225;rias &#224; ci&#234;ncia vivisseccionista. Se fizer um esfor&#231;o m&#237;nimo para botar na ponta do l&#225;pis o investimento que este modelo de ci&#234;ncia consome dos governos, das ag&#234;ncias financiadoras e do bolso dos pacientes ou de suas fam&#237;lias, que pagam rem&#233;dios car&#237;ssimos que nunca os livram de todos aqueles males, o presidente regional da SBPC de Campinas poder&#225; concluir que algo est&#225; dando errado, algo volumoso est&#225; escapando pelos ralos das pias dos laborat&#243;rios vivisseccionistas, n&#227;o apenas o sangue dos animais exterminados nos experimentos, mas tamb&#233;m a intelig&#234;ncia cient&#237;fica da juventude for&#231;ada a moldar-se a este &#250;nico modelo para a cura das doen&#231;as humanas, quando esta mesma intelig&#234;ncia deveria ser direcionada para a busca da preven&#231;&#227;o da maioria destas doen&#231;as, que n&#227;o s&#227;o de ordem gen&#233;tica, mas &#8220;ambiental&#8221; e &#8220;cultural&#8221;.

p(highlightr). Quanto &#224;s vacinas, &#233; preciso dizer que o pr&#243;prio Sabin reconheceu que perdeu uma d&#233;cada de sua vida seguindo o caminho errado ao adotar o modelo animal

Quanto aos produtos de higiene pessoal e cosm&#233;ticos, &#233; certo que at&#233; a d&#233;cada de 80 do s&#233;culo XX, na Europa e nos Estados Unidos eram necessariamente testados em animais vivos (Draize Test e LD 50), levando &#224; morte em agonia milh&#245;es de coelhos, para citar apenas uma das v&#225;rias esp&#233;cies usadas nestes testes, em cujos olhos os componentes eram testados. Mas, se fosse buscar um pouco mais de informa&#231;&#227;o, o senhor Jo&#227;o Ernesto de Carvalho j&#225; teria lido alguma coisa sobre o que se fez para eliminar definitivamente tais testes na produ&#231;&#227;o desses itens. Ali&#225;s, a comunidade europ&#233;ia decidiu que a partir de 2010 n&#227;o poder&#227;o mais ser comercializados tais produtos em seu territ&#243;rio, exatamente por serem testados em animais. Estarrecida fico eu, com sua desinforma&#231;&#227;o.
 
Quanto aos aditivos colocados nos alimentos, &#233; de lastimar que n&#227;o tenha lido o quanto s&#227;o t&#243;xicos e o quanto respondem pelo alto &#237;ndice de c&#226;ncer em humanos. Em outras palavras, em vez de defender a vivissec&#231;&#227;o como forma apolog&#233;tica de defesa dos qu&#237;micos artificiais usados pela ind&#250;stria da comida para garantir que o produto n&#227;o apodre&#231;a dentro das latas e sacos antes de serem consumidos pelos humanos, o missivista deveria lamentar que a comida humana tenha se tornado um produto sintetizado a tal ponto que os nutrientes esperados que deveriam garantir a sa&#250;de humana n&#227;o mais se fazem presentes nela. Em seu lugar foram introduzidos, pela pesquisa vivisseccionista, sint&#233;ticos de todo tipo, cor, sabor e aroma. A vivissec&#231;&#227;o &#233; respons&#225;vel, sim, por esta desgra&#231;a na qual a dieta humana se tornou. Isto n&#227;o &#233; um m&#233;rito da pesquisa vivisseccionista. &#201; resultado danoso. N&#227;o pode ser computado como algo positivo, algo em cujo nome se deva defender a pr&#225;tica vivisseccionista. Quanto aos ado&#231;antes, &#233; verdade, foram desenvolvidos em modelo animal vivo, e veja o que se descobre somente vinte anos mais tarde, com rela&#231;&#227;o ao aspartame: &#233; cancer&#237;geno, al&#233;m de alterar o metabolismo de quem o usa prolongadamente, fazendo com que a pessoa n&#227;o consiga mais perder o excesso de peso.

Quanto &#224;s vacinas, &#233; preciso dizer que o pr&#243;prio Sabin reconheceu que perdeu uma d&#233;cada de sua vida seguindo o caminho errado ao adotar o modelo animal, quando seus antecessores haviam acumulado informa&#231;&#245;es valios&#237;ssimas obtidas dos estudos feitos em humanos infectados. O &#8220;trabalho na preven&#231;&#227;o [da p&#243;lio] [afirma Sabin] foi atrasado por uma concep&#231;&#227;o err&#244;nea da natureza da doen&#231;a humana, baseada em falsos modelos experimentais em macacos&#8221;, apud Greif &amp; Tr&#233;z, A verdadeira face da experimenta&#231;&#227;o animal, 2000. Os cientistas haviam encontrado o v&#237;rus no trato digestivo, mas os que usavam modelo animal insistiam em fazer a vacina centrando-se nas vias respirat&#243;rias.

Com isso n&#227;o se est&#225; a dizer que todo esfor&#231;o de tantas pessoas inteligentes e bem-intencionadas nunca resultou em nada. O que se deve entender, &#233; que todo este esfor&#231;o, se empregue em modelos n&#227;o vivisseccionistas, tamb&#233;m teriam levado a resultados valiosos. Hoje, a l&#243;gica imperante &#233; a seguinte: se as descobertas n&#227;o levarem &#224; proposi&#231;&#227;o de nenhuma droga, mas &#224; proposi&#231;&#227;o de projetos direcionados para redesenhar a forma como estamos vivendo e comendo h&#225; mais de tr&#234;s d&#233;cadas, tal modelo, que n&#227;o traz lucro algum &#224; ind&#250;stria das drogas &#233; varrido para debaixo do tapete. Isto &#233; o que ocorre hoje com as pesquisas n&#227;o voltadas para a venda de drogas, mas para a preven&#231;&#227;o das doen&#231;as.

Quanto &#224; sua &#250;ltima quest&#227;o, a da coer&#234;ncia moral, n&#227;o h&#225; d&#250;vida de que &#233; a &#250;nica contribui&#231;&#227;o valiosa de seu artigo: &#233; preciso abdicar de produtos de origem animal, seja de animal vivo ou morto, e de todos os outros que foram produzidos pela ind&#250;stria da vivissec&#231;&#227;o. Obrigada por escrever que quem n&#227;o segue &#224; risca o princ&#237;pio da n&#227;o-viol&#234;ncia &#233; hip&#243;crita. Concordo absolutamente consigo. Ali&#225;s, procuro viver h&#225; mais de duas d&#233;cadas de acordo com este princ&#237;pio. Quanto ao &#250;ltimo par&#225;grafo de seu artigo, o que se refere ao aumento na expectativa de vida, os pr&#243;prios m&#233;dicos reconhecem que ele se deve em especial aos h&#225;bitos de higiene e aos cuidados com a alimenta&#231;&#227;o, incorporados ao longo do s&#233;culo XX, por boa parcela dos humanos esclarecidos, n&#227;o &#224; vivissec&#231;&#227;o.

Obrigada por rebater minha posi&#231;&#227;o. </description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 18 Fev 2010 22:00:00 -0200</pubDate>
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      <title>Por que lutar por jaulas vazias?</title>
      <description>Macacos, gatos, carneiros, porcos, lagartixas, ratos: muitas diferen&#231;as h&#225; entre estas esp&#233;cies e a humana. Dependendo do crit&#233;rio comparativo que se adote, a superioridade pende para umas em detrimento de outras. Ningu&#233;m duvida de que o faro de um c&#227;o &#233; superior ao de um sapo, ou que a vis&#227;o do cavalo &#233; inferior &#224; do lince. Ningu&#233;m duvida de que a capacidade de produzir tecnologia de ponta &#233; infinitamente superior nos humanos. Por maiores que sejam as diferen&#231;as entre as esp&#233;cies, nem a bioogia nega uma verdade a alguns ainda chocante: somos todos animais.

p(highlight). N&#227;o Queremos Jaulas Maiores, Queremos Jaulas Vazias. 
 
Nos &#250;ltimos milhares de anos, a hist&#243;ria do planeta pode ser contada a partir da escraviza&#231;&#227;o das esp&#233;cies n&#227;o humanas pelos humanos. Poder&#237;amos dizer tamb&#233;m que  a hist&#243;ria tem se constru&#237;do pela domina&#231;&#227;o do forte sobre o indefeso, e isso mesmo internamente &#224; esp&#233;cie humana, tanto &#233; que o fen&#244;meno da escravid&#227;o aconteceu e acontece em diferentes pa&#237;ses, refletindo a mesma l&#243;gica. Entretanto, a evolu&#231;&#227;o dos aspectos morais fez o homem reconhecer que essa possibilidade natural - a supemacia do forte sobre o fraco &#8211; n&#227;o se sustentava do ponto de vista &#233;tico. Pelo contr&#225;rio, a &#233;tica tratou de apontar ao homem a necessidade de proteger os seres mais vulner&#225;veis: idosos, crian&#231;as, doentes, dentro do princ&#237;pio da tutela do fraco. O mesmo ainda n&#227;o se estendeu &#224; considera&#231;&#227;o das esp&#233;cies mais fracas. Se a domina&#231;&#227;o das esp&#233;cies mais fracas est&#225; justificada pelo princ&#237;pio do estado de natureza em que o forte domina o fraco, n&#227;o deveria estar na &#233;gide da racionalidade e mralidade humana. Alegar o estado de natureza nos levaria a re-adotar uma s&#233;rie de h&#225;bitos e de vis&#245;es que fomos abandonando pelo uso da raz&#227;o e da &#233;tica. O homem, a despeito disso, segue explorando os animais.  
Os defensores dos direitos animais (DDAs) costumam ser abordados e for&#231;ados a justificar sua defesa de esp&#233;cies &#8220;inferiores&#8221;, quando o opressor &#233; que deveria se justificar. Cabe perguntarmos por que raz&#227;o ci&#234;ncia, religi&#227;o e cidad&#227;os pacatos, pobres e ricos, todos se unem em torno de um ponto comum: a explora&#231;&#227;o animal? Por que ainda se matam animais para comer, havendo alternativas alimentares, saud&#225;veis, ecol&#243;gicas e econ&#244;micas? Por que ainda se ca&#231;am animais, havendo tantas formas de lzer e at&#233; reprodu&#231;&#245;es da pr&#225;tica de ca&#231;ar em meios tecnol&#243;gicos? Por se mant&#234;m animais em gaiolas, quando se pode adornar uma casa com quadros e esculturas e ouvir os cantos em aparelhos de som?  Por que cientistas n&#227;o buscam alternativas ao uso de animais em pesquisas? Quando ci&#234;ncia e religi&#227;o ficam t&#227;o pr&#243;ximas que n&#227;o sabemos quem &#233; mais fundamentalista, temos a&#237; um grave problema. Nem todo progresso &#233; &#233;tico, nem todo progresso eleva. Contra a &#233;tica, nenhum progresso se justifica.

O ano de 2008, na contram&#227;o da escraviza&#231;&#227;o animal, consolida a luta pelos seus direitos, defendendo algo maior do que o bem estar animal, a sua definitiva liberta&#231;&#227;o. Quando Tom Regan escreve o livro Jaulas Vazias, est&#225; defendendo a id&#233;ia da liberta&#231;&#227;o animal e repudiando o chamado bem-estarismo, pelo qual alguns protetores de animais preconizam melhores tratamentos, aceitando, por&#233;m, a id&#233;ia da escravid&#227;o. Algo como um senhor de escravos generoso. O abolicionismo repudia qualquer forma de esravid&#227;o, e alguns te&#243;ricos do abolicionismo chegam a atestar que o bem-estarismo consolida e protela a escravid&#227;o animal eternamente. Assim, Porto Alegre sediar&#225; no pr&#243;ximo dia 13 mais uma edi&#231;&#227;o do Dia Internacional dos Direitos Animais, sob o tema N&#227;o Queremos Jaulas Maiores, Queremos Jaulas Vazias. </description>
      <author>gae.poa@gmail.com</author>
      <pubDate>Qui, 18 Fev 2010 22:00:00 -0200</pubDate>
      <link>/site/articles/5-por-que-lutar-por-jaulas-vazias</link>
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